sexta-feira, 22 de maio de 2015

Uvas Americanas e Híbridas



Uvas Americanas e Híbridas para Processamento em Clima Temperado

Apresentação

Duas características marcantes da vitivinicultura brasileira são a diversidade e a complexidade. Na verdade, temos diversas vitiviniculturas no país, cada uma com sua realidade climática, fundiária, tecnológica, humana e mercadológica. Entretanto, para qualquer uma delas, o cenário que se esboça neste início de século XXI é o de competição acirrada, tanto no mercado interno quanto no externo, exigindo grande esforço para o estabelecimento de um Programa Estratégico, com projetos e ações estruturais, que facilite a organização e oriente o estabelecimento de uma política setorial de desenvolvimento a curto, médio e longo prazo. Embora a produção de vinhos, suco de uva e demais derivados da uva e do vinho também ocorra em outras regiões, a maior concentração está no Rio Grande do Sul, onde são elaborados, em média anual, 330 milhões de litros de vinhos e mostos, representando 95% da produção nacional. O Cadastro Vitícola do Rio Grande do Sul (1995-2000) registra, no Estado, 12.829 propriedades que cultivam e vendem uva para processamento, as quais ocupam uma área total de 27.986,97 ha com vinhedos, sendo 417 ha com viveiros de porta-enxertos e coleções (1,5%); 4.792 ha com variedades viníferas (17,12%); e 2.7 ha com variedades americanas e híbridas (81,38%). Relativamente ao contingente humano envolvido na atividade, segundo pesquisa realizada pela Embrapa Uva e Vinho, em 1995 o número de pessoas residentes nas propriedades vitícolas era de 46.334, assim distribuídas de acordo com a faixa etária: 7,69% com 10 anos ou menos; 9,56% entre 1 e 18 anos; 69,20% entre 19 e 60 anos, e 13,56% com mais de 60 anos. Quanto à estrutura fundiária, são propriedades que possuem em média 15 ha de área total, sendo 40% a 60% destes de área útil. Trata-se, portanto, de uma atividade tipicamente de "agricultura familiar".
A agroindústria vitivinícola do Rio Grande do Sul assumiu, historicamente, a liderança da produção e abastecimento do mercado interno brasileiro. Mais recentemente, especialmente a partir da década de 70, começaram a ocorrerINVESTIMENTOS  com a implantação e/ou modernização das vinícolas, principalmente daquelas voltadas para a produção de vinhos finos. No mesmo período, a agroindústria de suco conseguiu se destacar pela qualidade e singularidade do produto elaborado, vindo a conquistar mercados internacionais exigentes e seletivos. Porém, o setor de produção vitícola não participou desta mudança com a mesma velocidade e objetividade, o que é evidenciado por um significativo desnível tecnológico entre os sistemas de produção da matéria prima (uva) e dos produtos (vinho, suco e derivados).
Inseridos neste cenário como principais protagonistas da cadeia produtiva, os produtos derivados das variedades de uvas americanas e híbridas apresentam um bom desempenho mercadológico. A comercialização de Vinho de Consumo Corrente apresenta um crescimento equilibrado ao longo do período 1997-2001, com taxas positivas que somam 26,4%. Este comportamento, em parte, está relacionado com o poder aquisitivo da população, pois, como se sabe, este tipo de vinho geralmente é comercializado a preços relativamente acessíveis. Outros aspectos, tais como a preferência pelas características de gosto e aroma "foxado" típico das variedades V.labrusca, a simpatia destes consumidores por produtos tipo "colonial", e a facilidade de encontrar os produtos mesmo nos locais mais remotos do país, também explicam, em parte, a estabilidade verificada neste mercado.
Quanto ao segmento Suco de Uva, verifica-se um crescimento estável na produção que, no período 1997-2000, foi de 2% para o suco simples e de 35% para o suco concentrado. Neste período, do conjunto de produtos que compõem a cadeia produtiva vitivinícola, o suco concentrado foi o que apresentou melhor desempenho relativamente às exportações, superando, inclusive, as uvas de mesa, tanto em volume quanto em valores. A expectativa é de que, em não havendo maiores dificuldades em relação à política cambial, este segmento da cadeia vitivinícola venha a se expandir. Relativamente ao mercado interno, o desempenho do suco de uva também é positivo e estável, o que é confirmado não só pela produção crescente, mas também pelo aumento do consumo per capita do produto que, no período de 1997-2000, foi de 36% (esta evolução, no período 1993-2000, foi de 266%). Entretanto, este consumo interno ainda pode ser aumentado, já que, em termos absolutos, 0,3 litros/per capita/ano ainda é muito baixo.
O contraste entre os cenários aqui traçados, sinaliza a existência de uma lacuna tecnológica capaz de melhorar a eficiência técnica e econômica do sistema de produção de uvas americanas e híbridas. O preenchimento desta lacuna, se acompanhado por ações de políticas de desenvolvimento setorial, certamente viabilizará um processo de modernização/reconversão sintonizado com as exigências e oportunidades do mercado. Com base no conhecimento técnico-científico acumulado, a Embrapa Uva e
Vinho disponibiliza, neste trabalho, uma proposta de sistema de produção para uvas americanas e híbridas, capaz de mudar o perfil da vitivinicultura tradicional do Rio
Grande do Sul, e de outras regiões de clima temperado que produzam este tipo de uva.
Clima
O clima possui forte influência sobre a videira, sendo importante na definição das potencialidades das regiões. Ele interage com os demais componentes do meio natural, em particular com o solo, assim como com a cultivar e com as técnicas agronômicas da videira.
colheita por ano seguida de repouso vegetativo             Devem-se considerar três conceitos
Aqui serão abordados aspectos climáticos para as regiões brasileiras produtoras de uvas americanas e híbridas, destinadas à agroindústria, que possuem uma para diferenciar escalas climáticas de interesse da viticultura:
Macroclima, ou clima regional, que corresponde ao clima médio ocorrente num território relativamente vasto, exigindo, para sua caracterização, dados de um conjunto de postos meteorológicos; em zonas com relevo acentuado os dados macroclimáticos possuem um valor apenas relativo, especialmente sob o aspecto agrícola. Inversamente, um mesmo macroclima poderá englobar áreas de planície muito extensas. Mesoclima, ou clima local, que corresponde a uma situação particular do macroclima. Normalmente, é possível caracterizar um mesoclima através dos dados de uma estação meteorológica, permitindo avaliar as possibilidades da cultura da uva. A superfície abrangida por um mesoclima pode ser muito variável mas, nas regiões vitícolas, trata-se normalmente de áreas relativamente pequenas, podendo fazer referência à situações bastante particulares do ponto de vista de exposição, declividade ou altitude, por exemplo. Muitas vezes o termo topoclima é utilizado para designar um mesoclima onde a orografia constitui um dos critérios principais de identificação, como por exemplo o clima de um vale ou de uma encosta de montanha. Microclima, que corresponde às condições climáticas de uma superfície realmente pequena. Pode-se considerar dois tipos de microclima (Carbonneau, 1984): microclima natural - que corresponde à superfícies da ordem de 10 m a 100 m; e, microclima da planta - o qual é caracterizado por variáveis climáticas (temperatura, radiação) medidas por aparelhos instalados na própria videira. O termo genérico de bioclima é utilizado para essa escala que visa o estudo do meio natural e das técnicas de cultivo.
As três escalas climáticas são importantes para a viticultura. Deve-se escolher um macroclima que seja potencialmente propício à viticultura. Dentro desta condição macroclimática é necessário selecionar um mesoclima que amplie o potencial da região. E, por último, é necessário adotar sistemas de sustentação, de condução da planta e de manejo da videira e do solo que possibilitem obter colheitas com níveis de produtividade e qualidade adequados.
Elementos meteorológicos do clima
A videira é influenciada por diversos elementos meteorológicos do clima, dentre eles as temperaturas, chuvas, radiação solar, ventos, umidade do ar.
A temperatura do ar apresenta diferentes efeitos sobre a videira, variáveis em função das diferentes fases do ciclo vegetativo ou de repouso da planta, conforme exposto a seguir. Temperaturas de inverno: a videira é bastante resistente às baixas temperaturas na estação do inverno, quando se encontra em período de repouso vegetativo. As cultivares americanas e híbridas são mais resistentes ao frio que as cultivares viníferas, podendo resistir à temperaturas entre -20°C e -30°C. Essas temperaturas não ocorrem nas atuais regiões vitícolas brasileiras. O frio invernal é importante para a quebra de dormência das gemas, no sentido de assegurar uma brotação adequada para a videira. Segundo o zoneamento climático para o estado do Rio Grande do Sul (1994), as cultivares americanas necessitam de mais de 100 horas de frio (abaixo de 7ºC) para uma boa quebra de dormência. Exemplificando, Bento Gonçalves, localizada na região vitivinícola da Serra Gaúcha apresenta, de maio a agosto, um total médio de 358 horas de frio abaixo de 7,2ºC, não apresentando, portanto, qualquer restrição ao cultivo de americanas em relação à exigência de frio invernal. Em anos com pouco frio pode ocorrer menor índice de quebra de dormência das gemas da videira.
Temperaturas de primavera: de forma genérica considera-se a temperatura de 10ºC como mínima para que haja desenvolvimento vegetativo. As geadas primaveris podem causar a destruição dos órgão herbáceos da planta. A partir do período de brotação da videira ela é sensível a frios abaixo de –1,1ºC. Assim, regiões com elevado risco de geadas durante o período vegetativo da videira devem ser evitadas. O plantio de cultivares de brotação precoce não é recomendado em locais com riscos moderados a altos de geadas tardias. O plantio de cultivares de brotação tardia em locais com riscos baixos a moderados de geadas é prática corrente na viticultura. Contudo, as videiras americanas, quando danificadas por geadas tardias no início da brotação, podem apresentar brotação das gemas dormentes da base dos ramos, que são gemas férteis, o que pode assegurar uma colheita, ainda rentável, mesmo que inferior à normal. Os danos por geadas dependem da intensidade do frio, da época de ocorrência e do estádio fenológico da planta.
Temperaturas de verão: condições térmicas muito quentes podem resultar na obtenção de uvas com maiores teores de açúcares, menor acidez e, nas cultivares tintas, menor intensidade de cor. A Tabela 1 apresenta a soma térmica média necessária à maturação de diferentes cultivares de uvas americanas e híbridas destinadas à agroindústria. Os dados são da região da Serra Gaúcha e podem servir como indicativos aproximados para outras regiões do sul do Brasil. Para se estimar a data de colheita da uva de uma determinada cultivar, deve-se fazer o somatório das temperaturas médias do ar superiores a 10ºC subtraída da temperatura basal de 10°C, dia a dia, a partir da brotação da videira até atingir a soma térmica para a cultivar em questão. O resultado da soma térmica é expresso em graus-dia.
Temperaturas de outono: elas afetam o comprimento do ciclo vegetativo da videira, o que é importante para a maturação dos ramos e a acumulação de reservas pela planta. A ocorrência de geadas outonais acelera a queda das folhas e o fim do ciclo vegetativo da planta.
Precipitação: a precipitação pluviométrica é um dos elementos meteorológicos mais importantes na viticultura. A videira é uma cultura bastante resistente à seca. Para a videira influem não somente a quantidade total de chuvas, mas também sua distribuição ao longo do ciclo vegetativo. As chuvas de inverno têm pouca influência sobre a videira. É importante que os solos apresentem disponibilidade hídrica adequada no período de brotação das plantas. Durante a primavera, as chuvas são importantes para o desenvolvimento da planta, porém, em excesso, podem favorecer o desenvolvimento de algumas doenças fúngicas da parte aérea, bem como afetar fases importantes da videira, como a floração e a frutificação, causando baixo vingamento de frutos e desavinho. De uma maneira geral observa-se que nas condições sul-brasileiras médias, as chuvas de verão ocorrentes caracterizam um clima de ausência de seca para a videira. Elas tendem a ser excedentárias. Em períodos chuvosos durante a fase de maturação das uvas, verifica-se com freqüência a colheita antecipada das uvas, em relação ao ponto ótimo de colheita. Essa prática adotada pelo viticultor para evitar perdas de colheita causadas por podridões do cacho impõe limites à qualidade das uvas destinadas à agroindústria. Após a colheita das uvas, a importância das chuvas diminui, podendo resultar em crescimento da planta e na ocorrência de doenças fúngicas da parte aérea.
Cabe destacar que a ocorrência de granizo é um fenômeno prejudicial à viticultura, onde os maiores danos são causados durante o período do ciclo vegetativo que vai da brotação à colheita das uvas.
Radiação Solar: a videira é uma planta exigente em luz. O manejo do dossel vegetativo do vinhedo deve proporcionar uma boa exposição foliar à radiação solar. Durante o período de maturação das uvas a evolução do teor de açúcar é favorecido peça ocorrência de dias ensolarados.
Umidade relativa do ar: vinhedos localizados em áreas com umidade relativa do ar elevada estarão mais sujeitos à incidência de doenças fúngicas, em particular o míldio, em relação àqueles situados em condições com menor teor de umidade. Ventos: os ventos podem causar danos à vegetação, pois os ramos jovens rompem-se com relativa facilidade, resultando na diminuição da produção do vinhedo e em dificuldades na poda de inverno. Nessas situações, os vinhedos devem ser protegidos com quebra-ventos. Já as condições de relevo do terreno possibilitam a seleção de áreas para a viticultura com um mesoclima particular. É o caso das encostas bem expostas com exposição Norte. Normalmente menos férteis que as condições de fundo dos vales e com maior insolação e drenagem, possibilitam colheitas menos abundantes, porém geralmente com melhor qualidade. Nestas condições, há necessidade de adoção de práticas de conservação do solo. As condições de declividade do terreno vão definir, juntamente com a exposição, a incidência de maior ou menor insolação. Situações de alta declividade do terreno não são recomendadas, seja pelos riscos de erosão, seja pela dificuldade de mecanização.
O clima das regiões brasileiras produtoras de vinhos de consumo-corrente
A produção de uvas americanas e híbridos para a agroindústria está concentrada em condições climáticas de tipo temperado e subtropical. Em todas elas, as baixas temperaturas de inverno resultam na queda das folhas seguida do período de repouso da videira. Assim, diferentemente de algumas condições encontradas em regiões de produção de uvas de mesa, obtêm-se somente uma safra anual.
Dados climáticos médios mensais indicativos para as diferentes regiões vitivinícolas dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais, relativos à temperatura do ar - média, máxima e mínima, precipitação pluviométrica e insolação, são apresentados na Figura 1.



A Tabela 2 apresenta um conjunto de dados climáticos e índices bioclimáticos para nove regiões produtoras de uvas para vinhos de consumo corrente.
Verifica-se que, na região Sul do Brasil, a distribuição das chuvas é bastante homogênea ao longo dos meses do ano (Figura 1). Já na região Sudeste, a precipitação apresenta uma distribuição desigual ao longo do ano, sendo menor nos meses de abril a setembro.
No conjunto de região produtoras do Brasil, as variáveis climáticas apresentam comportamento diferenciado ao longo do ano, incluindo as temperaturas, a insolação, a precipitação pluviométrica e os índices climáticos vitícolas (Tabela 2). As regiões com maior índice térmico eficaz apresentam a característica de terem uma data de colheita mais precoce que as de menor índice.
Quanto à qualidade da uva, no Rio Grande do Sul, o índice heliopluviométrico de maturação (Westphalen, 1977), calculado pela razão entre a insolação efetiva (h) e a precipitação total (m) no período de dezembro a fevereiro, é usado para caracterizar o potencial das regiões para a maturação de uvas americanas. Considera-se condição ótima de maturação o índice >2, condições boas de 1,7 a 2,0 e ruins abaixo de 1,7.
Os fatores de qualidade dos vinhos e outros produtos vitivinícolas nas diferentes regiões é função do clima, do solo, das cultivares, técnicas de cultivo e sistemas de processamento empregados.
As características climáticas da vitivinicultura brasileira são bastante particulares e distintas daquelas encontradas na maioria dos países vitivinícolas. Tal situação confere aos produtos um conjunto de características e uma tipicidade própria, em grande parte influenciada pelo efeito clima, que ainda está por ser melhor conhecido. Em todas as condições de produção, o aroma foxado é uma característica organoléptica típica dos vinhos e sucos elaborados a partir de uvas comuns.
Tabela 1. Data média de brotação e colheita da uva, número médio de dias e soma térmica da brotação à colheita de diversas cultivares americanas e híbridas destinadas à agroindústria no Brasil. Serra Gaúcha, Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul. Dados do Banco Ativo de Germoplasma da Uva da Embrapa Uva e Vinho; média de oito anos de observações fenológicas.
Cultivar
Americana Híbrida
Data média de brotação (Db)
Data média da colheita (Dc)
Número de dias médio da Db a Dc
Soma térmica (Grausdia) média da Db à Dc (>10ºC)






Fonte dos dados climáticos: Estação agrometeorológica da Embrapa Uva e Vinho
Tabela 2. Dados climáticos e índices bioclimáticos para nove regiões produtoras de uvas para vinhos de consumo corrente no Brasil, nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais.
Estado/Região Vitivinícola
Rio Grande do Sul Santa
Catarina São Paulo Minas Gerais
Coordenadas Geográficas Dados climáticos Índices bioclimáticos
Unidade de medida Serra Gaúcha Rolante
São José do Ouro
Jaguari Urussanga
Alto Vale do Rio do Peixe
São Roque
São Miguel Arcanjo/ Capão Bonito
Caldas/ Andradas
Coordenadas geográficas (referência para os dados climáticos)



Dados Climáticos

máxima do ar - média anual



Índices bioclimáticos (do período ativo de vegetação: 01.09 a 30.04)




Fonte dos dados climáticos: Serra Gaúcha: Embrapa Uva e Vinho, Bento Gonçalves, RS; Rolante, São José do Ouro e Jaguari: Atlas Agroclimatológico do Estado do Rio Grande do Sul - IPAGRO, 1989; Urussanga: Epagri - Estação Experimental de Urussanga, SC; Alto Vale do Rio do Peixe: Epagri - Estação Experimental de Videira, SC; São Roque e São Miguel Arcanjo/Capão Bonito: Instituto Agronômico de Campinas - IAC - Seção de Climatologia Agrícola, Campinas, SP; Caldas/Andradas: Epamig - Estação Experimental de Caldas, MG.
Figura1


Fig. 1. Dados climáticos médios mensais indicativos para as diferentes regiões vitivinícolas dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais: temperatura do ar - média, máxima e mínima, precipitação pluviométrica e insolação.
Preparo do solo, calagem e adubação
Escolha da área
A videira se adapta em ampla variedade de solos, no entanto, dá-se preferência a solos com textura franca e bem drenados, com pH variando de 5,0 a 6,0 e com teor de matéria orgânica com pelo menos 20 g dm-3.
Topografia
A topografia influencia na drenagem das águas e na temperatura ambiente. Solos planos e argilosos tendem a ter menor capacidade de drenagem das águas, enquanto que os solos declivosos tendem a não apresentar problemas com encharcamento. A exposição do vinhedo para o norte permite que as plantas recebam os raios solares por mais tempo e ainda fiquem protegidas dos ventos frios do sul.
Preparo da área
O preparo da área tem por finalidade assegurar que as mudas de videira sejam plantadas em condições que possam expressar todo o seu potencial produtivo. Ele consta das operações de roçagem, destocamento, lavração, gradagem, abertura das covas ou sulcamento.
Roçagem – Consiste na eliminação da vegetação existente. Esta prática pode ser executada manualmente ou com tratores. Em ambos os casos, não é aconselhável a queima da vegetação, apenas retiram-se os arbustos e galhos maiores, sendo o restante incorporado ao solo através de uma ou mais lavrações.
Destocamento – Caso a área seja coberta por mata ou outra vegetação maior, com sistema radicular mais desenvolvido, aconselha-se executar o destocamento após a roçagem da vegetação. Esta prática tem por objetivo a retirada dos tocos maiores para facilitar os demais trabalhos. Ela é feita com implementos mais pesados tracionados por tratores e eventualmente por animais.
Lavração – Esta prática visa a mobilização total do solo. A profundidade em que esta mobilização é feita depende do tipo de solo e dos trabalhos nele executados anteriormente. É mais comum fazer a lavração à profundidade de 20 cm a 25 cm.
Gradagem – Esta prática visa nivelar o terreno que foi revolvido. Este nivelamento permite a distribuição mais uniforme dos adubos e facilita a demarcação das covas para o plantio.
Preparo das covas ou sulcamento – As covas são preparadas após o nivelamento do solo, tendo as dimensões de 50 cm x 50 cm x 50 cm. Quando a topografia permite, no lugar das covas, faz-se a abertura de sulcos com profundidade de 20 cm a 25 cm.
Calagem
Tem como finalidade eliminar prováveis efeitos tóxicos dos elementos que podem ser prejudiciais às plantas, tais como alumínio e manganês, e corrigir os teores de cálcio e magnésio do solo. Para a videira o pH do solo deve estar próximo de 6,0. No RS e SC utiliza-se o índice SMP como indicador da necessidade de calagem (Tabela 1), no entanto existem outros indicadores, tais como alumínio trocável e saturação de bases. Deve-se dar preferências para o uso do calcário dolomítico (com magnésio), sendo que o mesmo deve ser aplicado ao solo, pelo menos 3 meses antes do plantio, distribuindose em toda área.
Só aplique calcário quando a análise de solo indicar necessidade e/ou os teores de cálcio e magnésio forem menores que 2,0 e 0,5 cmolc, respectivamente. Normalmente, três a quatro anos após a implantação do vinhedo há necessidade de fazer uma nova calagem. O modo de aplicação do calcário é bastante controverso, pois em regiões de ocorrência de fusariose, o corte do sistema radicular pode aumentar a mortalidade de plantas infectadas por fusarium, e, em vinhedos sob Litossolos, há afloramento de rochas. Nas duas situações é proibitiva a prática da incorporação do calcário, sendo então necessário a aplicação do calcário na superfície sem a necessidade de incorporação. A quantidade a ser aplicada deve ser baseada em análise de solo e recomenda-se aplicar, superficialmente, 25% da quantidade recomendada pela análise.
Tabela 1. Recomendação de calagem para solos do RS e SC.
Índice SMP
Calcário a adicionar
Índice SMP
Calcário a adicionar (Mg ha-1)
5,7 4,8  
Fonte: SBCS-NRS / Comissão de Fertilidade do Solo RS/SC.
Adubação
Exigências nutricionais e sintomas de deficiência:
Fósforo - Solos brasileiros são deficientes em fósforo, com teores médios em torno de 1,0 mg kg-1 (Mehlich 1), que torna necessária a utilização de adubos químicos para suprir a deficiência. Os sintomas de deficiência de fósforo ocorrem em folhas maduras, onde é observado redução do tamanho, tornam-se amareladas e ainda podem apresentar limbo com manchas avermelhadas. A concentração normal de fósforo nas folhas da videira varia de 0,15% a 0,25%, sendo que a planta absorve cerca de 1,4 kg de P2O5 para produzir 1000 kg de frutos. Apesar dos solos brasileiros serem naturalmente deficientes em fósforo, não se tem observado sintomas de deficiência em plantas.
Potássio - Na grande maioria dos solos brasileiros a concentração de K é considerada baixa, no entanto, os solos da região da Serra Gaúcha apresentam teores de médio a elevado. Por ser um elemento bastante móvel no interior das plantas, os sintomas de deficiência de potássio ocorrem em folhas mais velhas. Nas cultivares brancas os sintomas iniciais se caracterizam por amarelecimento nas proximidades das bordas foliares, com o agravamento da deficiência as bordas ficam necrosadas. Nas cultivares tintas, as folhas tornam-se avermelhadas e também mostram o necrosamento das bordas.
A concentração normal de potássio nas folhas da videira varia de 1,50% a 2,50%, sendo que a planta absorve cerca de 6 kg de K2O para produzir 1000 kg de frutos. Apesar dos solos brasileiros serem naturalmente deficientes em potássio, como no fósforo, também não é comum sintomas de deficiência em plantas. O uso indiscriminado de fertilizantes potássicos aumenta a concentração desse elemento no mosto, isso pode acarretar problemas enológicos.
Nitrogênio - O teor de matéria orgânica é o indicador de disponibilidade de N no solo mais utilizado, mas este não tem sido muito eficaz na predição do comportamento das plantas, o que tem causado sérios problemas na viticultura, pois tanto o excesso quanto a deficiência de nitrogênio afeta a produtividade e a qualidade dos frutos.
Os sintomas de deficiência de nitrogênio se caracterizam pela redução no vigor das plantas e pela clorose (amarelecimento) no limbo das folhas maduras e velhas. Em algumas cultivares tintas as folhas e, principalmente, os pecíolos podem apresentar coloração avermelhada.
A concentração normal de N nas folhas da videira varia de 1,60% a 2,40%, sendo que a planta absorve cerca de 2 kg de N para produzir 1000 kg de frutos. Apesar dos solos brasileiros serem naturalmente deficientes em nitrogênio, freqüentemente observase tanto a falta quanto o excesso de N nos parreirais. Isto indica que os produtores ainda não têm consenso no uso de nitrogênio, principalmente porque há uma relação inversa entre excesso de vigor das plantas e produtividade e/ou qualidade dos frutos, o que leva os produtores a temer uma aplicação excessiva de fertilizantes nitrogenados.
Cálcio - O cálcio é um elemento pouco móvel na planta, por isso os sintomas de deficiência aparecem nas folhas jovens. Essas folhas normalmente são menores do que as normais, com a superfície entre as nervuras cloróticas, com pintas necróticas e tendência a se encurvarem para baixo. Os teores de cálcio considerados normais para a videira varia de 1,6% a 2,4% , sendo que as plantas retiram cerca de 6 kg de CaO para produzir 1000 kg de frutos.
Magnésio - Apesar dos teores de Mg2+ da grande maioria dos solos brasileiros serem baixos, ele não tem sido problema sério para a videira, pois, como para o cálcio, a utilização de calcário dolomítico para aumentar o pH do solo também aumenta o teor de
Mg. O magnésio é um elemento móvel na planta, por isso os sintomas de deficiência aparecem nas folhas maduras. Essas folhas apresentam a superfície entre as nervuras cloróticas, que com o agravamento da deficiência vão ficando amareladas, no entanto as nervuras permanecem verdes. Tem-se observado um distúrbio fisiológico chamado dessecamento da ráquis, sendo sua ocorrência mais freqüente em anos em que o período de maturação dos frutos é bastante chuvoso e o solo apresenta-se com alto teor de potássio e baixo de magnésio. Os teores de magnésio considerados normais para a videira varia de 0,25% a 0,50%, sendo que as plantas retiram cerca de 1 kg de MgO para produzir 1000 kg de frutos.
Boro - A grande maioria dos solos do Brasil, cultivados com videira, possuem baixo teor de boro. No RS, freqüentemente tem-se observado sintomas de deficiência de B, sendo que os problemas normalmente aparecem em solos cujo teor é menor do que 0,6 mg dm-3. A mobilidade do boro nas plantas ainda é muito discutida, principalmente porque os sintomas de deficiência aparecem nas folhas e ramos novos. A característica principal é a redução no tamanho das folhas e encurtamento dos entrenós. Os teores de boro considerados normais para a videira varia de 15 a 2 mg dm-3, sendo que as plantas retiram cerca de 10 g de B para produzir 1000 kg de frutos.
Formas de aplicação de adubos e corretivos
Existem três tipos fundamentais de adubação: a de correção, efetuada antes do plantio, a de plantio ou crescimento, realizada na ocasião do plantio do porta-enxerto ou da muda até 2 a 3 anos, e a de manutenção, realizada durante a vida produtiva da
planta  
Adubação de correção – Como o nome já diz, é feita para corrigir possíveis carências nutricionais. Nela procura-se corrigir os teores de fósforo, potássio e do micronutriente boro.
Os indicadores da disponibilidade de K e P para os solos do RS é o Mehlich 1, enquanto que para boro é a 'Água Quente'. A quantidade de nutriente a ser aplicada baseia-se em análise de solo e segue-se a Tabela 2. Os fertilizantes devem ser aplicados 10 dias antes do plantio e devem ser distribuídos em toda área.
As fontes utilizadas para fósforo são os superfosfatos, enquanto que para o potássio recomenda-se o uso do cloreto de potássio ou sulfato de potássio. Em condições de pH menor que 6,0 há possibilidade de utilização de fosfatos naturais, mas deve-se comparar o custo dessa aplicação com a aplicação de um fosfato mais solúvel. Para o boro recomenda-se a utilização de bórax, ácido bórico e ulexita.
Adubação de plantio ou crescimento – Esta adubação tem por finalidade fornecer nitrogênio às plantas durante os dois a três primeiros anos após a implantação. Utilizase esterco e/ou fertilizante químico à base de nitrogênio.
A quantidade de nitrogênio a ser aplicada está relacionada com o teor de matéria orgânica do solo e segue-se a tabela 3. A fonte de N a ser utilizada deve ser aquela mais fácil de ser encontrada na região. Quando for utilizada uréia deve-se tomar o cuidado para evitar perdas por volatilização, assim o solo deve estar úmido e/ou incorporar o fertilizante ao solo.
Em solos com menos de 25 g kg-1 de matéria orgânica recomenda-se a aplicação de esterco de frango na ocasião do plantio, na dose 15 t ha-1, que deve ser colocado no fundo das covas das plantas e bem misturado com o solo.
Adubação de manutenção - Tem a finalidade de repor os nutrientes que são exportados na forma de frutos. A recomendação para nitrogênio, fósforo e potássio é feita na expectativa da produtividade a ser alcançada e se utiliza três classes de produtividade que são: < 15, 15 a 25 e > 25 t ha-1, as doses recomendadas se encontram nas tabelas 4, 5 e 6 e as épocas de aplicações estão na tabela 7 e 8 . O Boro é o micronutriente que mais comumente se apresenta em concentrações abaixo do normal nas plantas da videira, assim, quando necessário, faz-se adubações de correção nas doses recomendadas pela tabela 9.


Tabela 2. Recomendações de adubação de correção.

K trocável (K2O (kg ha-1)
B Água Quente (B (kg ha-1)

Tabela 3. Recomendações de adubação nitrogenada de plantio ou crescimento.
Matéria Orgânica Dose de Nitrogênio g kg-1 kg ha-1
Tabela 4. Doses de fertilizante fosfatado a ser utilizado na adubação de manutenção conforme análise de tecido.
Teores de P nas Folhas Completas / Pecíolos
- Classes de Interpretação -
Dose de P2O5 (kg/Ha)
Deficiente / Abaixo do normal 40-80
Normal 0-40 Acima do normal/Excesso 0
Tabela 5. Doses de fertilizante nitrogenado a ser utilizado na adubação de manutenção conforme análise de tecido.
Teores de N nas Folhas Completas / Pecíolos
- Classes de Interpretação -
Produção Esperada (t ha-1)
Dose de N (kg ha-1)
Tabela 6. Doses de fertilizante potássico a ser utilizado na adubação de manutenção conforma análise de tecido.
Teores de K nas Folhas Completas / Pecíolos
- Classes de Interpretação -
Produção Esperada
Dose de K2O (kg ha-1)
Tabela 7. Época de aplicação de fertilizantes na videira (% da dose recomendada) destinada a produção de vinho.

10 dias antes da poda 75 60
10 dias após a poda 50 25 40
30 dias após a poda 25 
45 dias após a poda 25 
Tabela 8. Época de aplicação de fertilizantes na videira (% da dose recomendada) destinada a produção de suco.

10 dias antes da poda 75 40
10 dias após a poda 50 25 30
30 dias após a poda 25 
45 dias após a poda 25 
80 dias após a poda        30
Tabela 9. Adubação de manutenção baseada na concentração de boro em pecíolos e folhas completas de videira.
Material Faixa de interpretação Quantidade de B a aplicar (kg ha-1)
Pecíolos Insuficiente 9,7
Abaixo do normal 7,8
Normal 0
Acima do normal 0
Excessivo 0
Abaixo do normal 9,7
Normal 0 Folhas inteiras Acima do normal 0
Manejo da cobertura do solo
Durante os dois primeiros anos de cultivo da videira a área pode ser cultivada com uma cultura anual nas entrelinhas e essa cultura intercalar deverá permitir a cobertura do solo enquanto a videira cresce. A partir do 3º ano do plantio (2o ano após a enxertia) não é mais recomendável a cultura intercalar. Contudo, a utilização da cobertura verde do solo do vinhedo, com gramíneas e/ou leguminosas de outono-inverno, pode ser útil ao solo e à videira. Entre os vários benefícios, esta prática auxilia o controle de ervas daninhas, mantém ou aumenta o teor de matéria orgânica do solo e diminui o estresse hídrico nas primaveras e verões secos. Para atingir esses objetivos sugere-se a seguinte sistemática:
Março/abril – fazer a análise do solo e realizar as correções da acidez e fertilidade do solo necessárias para a videira e a cultura verde de cobertura do solo. Somam-se as quantidades recomendadas dos fertilizantes para as duas culturas e a aplicação deve ser feita seguindo o seguinte esquema: calagem (se necessária) – adubação orgânica e/ou química – semeadura da cultura para a cobertura verde.
Roçada ou dessecamento – a época para fazer a roçada ou dessecamento da cobertura verde varia de ano para ano. O produtor pode deixar as plantas vegetando durante o maior tempo possível, mas tendo cuidado com a competição entre as plantas de cobertura e a videira. Na região da serra gaúcha é tecnicamente possível manter o solo do pomar coberto até outubro. A roçada ou dessecamento é feita com roçadeira ou herbicida sistêmico (glifosato ou similar).
Para a cobertura verde podem ser usadas várias espécies como: aveia preta, ervilhaca, azevém, nabo forrageiro, trevo, tremoço, entre outras. Também, pode-se fazer uma combinação de uma leguminosa com uma gramínea. A relva expontânea (natural) pode ser deixada como cobertura verde do solo, roçando quando atingir a altura de 30 cm, aproximadamente.
Porta-enxertos e cultivares
Muitas uvas americanas e híbridas são, normalmente, cultivadas de pé-franco porque apresentam suficiente resistência à filoxera, praga que determina a necessidade de enxertia das cultivares de Vitis vinifera, uma espécie sensível à praga. O nível de resistência das diversas espécies americanas à filoxera é variável sendo, em muitos casos, recomendável o uso da enxertia para uma melhor performance dos vinhedos.
Além do controle à filoxera, destacam-se como principais vantagens do uso da enxertia: a) maior desenvolvimento inicial das plantas, o que proporciona maiores colheitas nos primeiros anos de produção; b) maior vigor geral das plantas, assegurando maior produtividade do vinhedo; e, c) produção de cachos e bagas de maior tamanho, também com reflexos positivos sobre a produtividade. As principais vantagens de uso do péfranco são a facilidade para produzir as mudas e a maior longevidade do parreiral.
Porta-enxertos
Mais de uma dezena de porta-enxertos são utilizados na viticultura das regiões temperadas do Brasil. Os mais indicados para a produção de uvas americanas e híbridas para processamento são os que induzem maior vigor à copa e, em geral, induzem produtividades maiores. Todavia, na escolha do porta-enxerto também devem ser considerados fatores como a fertilidade do solo e a susceptibilidade do porta-enxerto a doenças e pragas ocorrentes na região ou local de plantio do vinhedo. Em certos casos a cultivar também pode ser determinante na escolha do porta-enxerto.
1103 Paulsen - Este porta-enxerto pertence ao grupo berlandieri x rupestris. Teve grande difusão no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina nos últimos anos porque apresenta tolerância à fusariose, doença comum nas zonas vitícolas da Serra Gaúcha e do Vale do Rio do Peixe. É vigoroso, enraíza com facilidade e apresenta boa pega de enxertia. Tem demonstrado boa afinidade geral com as diversas cultivares. É o portaenxerto mais propagado atualmente na região sul do Brasil. Entre os viticultores também é conhecido como Piopeta ou Piopa.
Solferino - É um porta-enxerto muito utilizado no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Foi introduzido e difundido a partir da década de 1920 como 3309, um portaenxerto do grupo V. riparia x V. rupestris. Mais tarde foi identificado como um V.berlandieri x V.riparia e, não tendo sido identificada a cultivar, passou a ser denominado Solferino. É conhecido pelos viticultores pelo nome "Branco Rasteiro" devido ao aspecto esbranquiçado da brotação e ao seu hábito de crescimento prostrado. Apresenta vigor médio, boa afinidade geral com as copas e normalmente confere produtividade elevada.
Téléki 8 B – É um berlandieri x riparia que apresenta vigor médio a alto, sendo bastante difundido na Serra Gaúcha, onde é conhecido pelos viticultores pelo nome "Peludo", devido à forte pubescência dos ramos e sarmentos. Apresenta bom vigor e induz a boas produtividades.
SO4 - Este porta-enxerto do grupo berlandieri x riparia foi introduzido na década de 1970, sendo muito difundido no Rio Grande do Sul nos anos subsequentes. Em geral confere desenvolvimento vigoroso e boas produtividades à maioria das copas. Atualmente é muito pouco propagado devido à alta sensibilidade à fusariose e a problemas de dessecamento do engaço, uma anomalia verificada em certos anos, devido a desequilíbrio nutricional envolvendo o balanço entre potássio, cálcio e magnésio.
Estes problemas não têm sido constatados na região de Livramento, onde o solo é profundo e bem drenado.
Rupestris du Lot – Trata-se de uma variedade de V. rupestris, característica pelo hábito de crescimento ereto, sendo, por isso, conhecido pelos agricultores da Serra Gaúcha pelos nomes "Vassourinha", "Pinheirinho" ou "Arboreto". É um porta-enxerto vigoroso, com sistema radicular pivotante, adaptado a solos profundos. Apresenta fácil enraizamento, boa pega de enxertia e induz alto vigor à copa.
Alguns outros porta-enxertos têm sido usados na viticultura sulina para a produção de uvas americanas e híbridas. Entre eles podem ser citados o Golia, um híbrido de V. vinifera x (V. riparia x V. rupestris) e o IAC 766, oriundo do cruzamento 106-8 x V. tiliifolia.
Cultivares
No grupo das uvas americanas e híbridas para processamento destacam-se as cultivares de Vitis labrusca, algumas cultivares de Vitis bourquina e diversos híbridos interespecíficos, às vezes complexos, envolvendo várias espécies americanas e também V. vinifera. Como regra, são cultivares de alta produtividade e resistentes às doenças fúngicas, adaptando-se bem às condições ambientais do Sul do Brasil. As principais cultivares são descritas a seguir.
Uvas tintas
Bordô - cultivar de Vitis labrusca, muito rústica e bastante produtiva. É muito disputada entre os vinicultores devido ao elevado teor de matéria corante do vinho, usado em cortes com os vinhos pouco coloridos de Isabel. Da mesma forma, também é disputada pela indústria de suco com o mesmo objetivo, de corrigir a coloração de sucos elaborados com Isabel e Concord. É cultivada desde o Rio Grande do Sul até o Sul de Minas Gerais, onde é conhecida como Folha de Figo. Apresenta vigor moderado, alta resistência às doenças fúngicas, porém, tem baixo potencial glucométrico . Em certos anos apresenta seca dos cachos antes da floração, problema cuja causa ainda não foi determinada.
BRS Rúbea - oriunda do cruzamento entre Niágara Rosada e Bordô, BRS Rúbea foi lançada pela Embrapa Uva e Vinho em 1999. É especialmente recomendada como melhoradora do suco de uva brasileiro. Apresenta intensa cor violácea e características de aroma e sabor de alta qualidade para suco de uva. Também pode ser usada para a elaboração de vinho tinto para corte com vinhos pouco coloridos de Isabel. Está em difusão no Rio Grande do Sul, podendo, também, ser uma opção para outras regiões de clima temperado do Sul do Brasil. É uma cultivar vigorosa, medianamente produtiva e resistente às principais doenças fúngicas como antracnose, míldio, oídio e podridões do cacho. Assim como a Bordô, tem baixo potencial glucométrico, ao redor de15ºBrix.
Concord - é a labrusca mais procurada para a elaboração de suco pelas características de aroma e sabor que confere ao produto. Em geral é cultivada de pé franco com bons resultados. É bastante produtiva quando em poda longa. Apresenta alta resistência ao míldio e ao oídio, porém, mostra-se um pouco sensível à antracnose, doença que pode causar perdas se não for convenientemente controlada na fase inicial do crescimento vegetativo. A película da uva é fina, por isso, bastante susceptível ao rachamento de bagas quando ocorre tempo chuvoso na fase de maturação. Certos vinhedos apresentam abortamento floral com prejuízos significativos. As causas deste problema ainda não são conhecidas, podendo ser de ordem nutricional ou de origem fitossanitária. Concord é cultivada principalmente nos três Estados do Sul, sendo também conhecida como Francesa e Bergerac.
Concord Clone 30 - este clone foi selecionado em 1989 e, após avaliado, foi propagado pela sua precocidade de maturação, cerca de quinze dias antecipada em relação à cultivar original. Apresenta as características gerais da Concord e é especialmente indicada como alternativa para antecipar e prolongar o período de produção e processamento de uvas para suco. Este clone vem sendo propagado para plantio no Rio Grande do Sul desde o ano de 1999.
Herbemont - é uma cultivar tinta em geral vinificada em branco, fornecendo vinho branco de mesa ou vinho base para destilado ou para a produção de espumante. Apresenta alta capacidade produtiva mas a área de cultivo vem diminuindo regularmente devido à sua alta sensibilidade ao Fusarium oxysporum f.sp. herbemontis, fungo de solo causador da fusariose da videira. Além disso é sensível à podridão causada por Botrytis cinerea. É uma cultivar de Vitis bourquina, com importância comercial principalmente no Rio Grande do Sul e, em pequena escala, em Santa Catarina.
Isabel - apesar de todos os esforços para substituir esta cultivar desde a década de 1930, a Isabel persiste com 50% da uva produzida no Rio Grande do Sul e é a principal cultivar plantada em Santa Catarina. Origina vinho típico, em anos chuvosos pouco coloridos, apreciado por uma faixa específica de consumidores. O suco de Isabel é a base do suco brasileiro para exportação. É uma cultivar de Vitis labrusca, muito bem adaptada às condições climáticas do Sul do Brasil. Fornece produções abundantes em poda curta; resistente ao oídio e às podridões do cacho, porém está sujeita a perdas pela incidência de antracnose e de míldio. Normalmente é enxertada mas pode ser plantada de pé-franco; vinhedos de pé-franco normalmente exigem um período de formação mais longo mas atingem 80-100 anos com produções econômicas.
Isabel Precoce - é um clone de Isabel, decorrente de mutação somática, selecionado em
1993 num vinhedo comercial situado no município de Farroupilha. Apresenta as características gerais da tradicional cultivar Isabel, entretanto, tem a maturação antecipada em 35 dias. Foi avaliada na Embrapa Uva e Vinho e a partir do ano 2000 começou a ser difundida como alternativa para a ampliação do período de produção e processamento de uvas para vinhos tintos de mesa e suco de uva. As condições para cultivo de Isabel Precoce são as mesmas da cultivar original.
Jacquez – antiga cultivar de Vitis bourquina, a Jacquez é muito cultivada no Rio Grande do Sul sob a denominação errônea de Seibel (Seibel Pica Longa). É uma das principais cultivares da viticultura do Sul de Minas Gerais. A planta é vigorosa e muito produtiva, tem elevado potencial de açúcar e normalmente é plantada de pé-franco.
Origina vinho de coloração intensa, porém, a coloração é pouco estável. É relativamente sensível ao míldio e à antracnose.
Seibel 2 – esta antiga híbrida já teve maior difusão na viticultura brasileira, principalmente em São Paulo e também na Serra Gaúcha. É uma planta de vigor moderado, muito produtiva e resistente às doenças. O vinho é intensamente colorido, usado em cortes com vinho de Isabel. Recentemente tem-se verificado a expansão da área nos vinhedos da Serra Gaúcha. Mantém-se como a principal uva para vinho cultivada no Estado de São Paulo.
Seibel 1077 – é uma antiga híbrida (rupestris x linsecumii) x vinifera, cultivada no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina sob a denominação Couderc Tinto. É planta vigorosa e produtiva, porém, bastante sensível à podridão cinzenta. O vinho de Seibel 1077, intensamente colorido e neutro em aroma, é usado principalmente em cortes.
Uvas brancas e rosadas
BRS Lorena – criada pela Embrapa Uva e Vinho, BRS Lorena é resultante do cruzamento Malvasia Bianca x Seyval, realizado em 1986. Em 2001 foi lançada como cultivar, especialmente recomendada para a elaboração de vinho espumante moscatel. Apresenta alta produtividade e teor de açúcar superior a 20ºBrix. É bastante resistente às doenças fúngicas, porém, sensível à filoxera em sua forma galícola, havendo necessidade de controle desta praga em certos anos. Origina vinho de mesa moscatel característico e vinho moscatel espumante com intensa espuma e perlage persistente. Está em difusão na região da Serra Gaúcha.
Couderc 13 - introduzida na década de 1970 pela Estação Experimental de Caxias do Sul, foi difundida com relativa facilidade por ser muito rústica e produtiva. O vinho é pouco ácido e neutro em sabor, podendo ser cortado com outros vinhos comuns. É cultivada no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, sendo que resultados de pesquisa a indicam como opção também para o Sul de Minas Gerais. É uma cultivar resistente às doenças fúngicas, entretanto, apresenta baixo potencial glucométrico.


Gota de Ouro – trata-se de nome usado na Serra Gaúcha para uma uva rosada de Vitis labrusca, também conhecida como "Chavona", "Pinot", "Uva Casca Dura" e "Beija Flor" na região. É a principal cultivar da região de Jaguari-RS, onde é denominada "Goethe". Apresenta grande vigor, resistência às doenças fúngicas e boa fertilidade, porém, é pouco produtiva porque apresenta cachos pequenos. Normalmente é cultivada de pé-franco e, às vezes, é usada como porta-enxerto para outras cultivares. Origina vinho branco de mesa, típico pelo intenso aroma, característico da cultivar.
Moscato Embrapa - cultivar lançada em 1997, a Moscato Embrapa é originária do cruzamento Couderc 13 x July Muscat, realizado em 1983. É uma cultivar de uvas brancas, sabor moscatel, muito produtiva e que apresenta boa resistência às doenças.
Apresenta ciclo relativamente tardio e normalmente atinge teor de açúcar superior a 18ºBrix, com acidez moderada. É indicada para a elaboração de vinho branco aromático de mesa. Está em difusão na região da Serra Gaúcha mas também apresenta bom comportamento nas regiões de Sarandi e de Jaguari , no Rio Grande do Sul. Pode ser uma alternativa para outras regiões do Sul do Brasil.
Niágara Branca - é a principal uva americana utilizada para a produção de vinho de mesa, sendo muito apreciada pelos consumidores devido ao intenso aroma e sabor característico que confere ao vinho. Além de expressiva área cultivada nas principais regiões produtoras do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, a Niágara Branca encontra-se difusa em pequenas áreas em várias partes do sul do Brasil e, também, no Sul de Minas Gerais, onde é empregada na elaboração de vinhos caseiros e, também, para consumo in natura. Niágara Branca é uma cultivar fértil e bastante resistente às doenças fúngicas. Pode ser plantada de pé-franco mas normalmente é enxertada.
Seyve Villard 5276 - também denominada Seyval, esta cultivar é uma híbrida complexa altamente produtiva e que apresenta alto potencial de açúcar, normalmente atingindo mais de 20ºBrix. Resiste ao míldio mas é sensível à antracnose, necessitando controle no início do ciclo vegetativo. Também é sensível à filoxera galícola, às vezes exigindo tratamentos para seu controle. Deve ser enxertada e exige adubações abundantes para suportar as grandes produções sem perda significativa do vigor e da longevidade. Origina vinho branco de mesa de muito boa qualidade. Durante algum tempo foi comercializada no Rio Grande do Sul como uva fina, em geral como Sauvignon ou como Riesling.
A tabela 1 sumariza as características gerais das diferentes cultivares americanas e híbridas descritas neste trabalho. Os dados apresentados podem variar significativamente de ano para ano e de local para local, além da possibilidade de variações devidas ao sistema de manejo empregado no vinhedo.
Tabela 1. Dados médios de brotação, colheita, produtividade, ºBrix e acidez total do mosto das diferentes cultivares1.
Cultivar Média de brotação
Média de colheita
Ton/ha °Brix Acidez
Total meq/L

Concord Clone 30 02/09 20/01 15-20 16,7 82 Dados fenológicos e de qualidade do mosto compilados do Banco Ativo de Germoplasma de Uva, Embrapa Uva e Vinho, Bento Gonçalves – RS; a produtividade refere-se a médias obtidas em condições comerciais, no sistema de condução em latada.
Obtenção e preparo da muda
As mudas de videiras americanas (Vitis labrusca, Vitis bourquina) e híbridas podem ser adquiridas em viveiristas ou preparadas na propriedade pelo processo de estaquia (pé-franco) ou enxertia.
Aquisição da muda pronta
Quando se adquire mudas prontas para implantar um vinhedo deve-se tomar muito cuidado. É imprescindível que se adquira as mudas de viveirista credenciado pela Secretaria da Agricultura e que tenha a origem do porta-enxerto e produtora com garantia de sanidade e a correta identificação varietal. A introdução de material contaminado (mudas, estacas, etc.) na propriedade pode comprometer a viabilidade econômica do empreendimento através do estabelecimento de focos de doenças e pragas de difícil controle. As mudas adquiridas devem ser de raiz nua, bem formadas, com comprimento mínimo de 20 cm e bem lavadas de forma que se possa observar a presença da praga "pérola-da-terra" e outros sintomas como engrossamento, nódulos, escurecimento e necroses causados por patógenos de solo. Também é importante que a muda apresente o calo de soldadura do enxerto bem formado, sem fendas e nem engrossamento excessivo. Além destes problemas que são visíveis, existem outros, especialmente aqueles causados por vírus que não são visíveis em mudas de um ou dois anos, quando são adquiridas, daí a importância de se conhecer a origem do material de propagação que originaram as mudas.
Formação da muda na propriedade
Muda de videiras americanas e híbridas, na sua maioria, pode ser formada pelo enraizamento direto da estaca da produtora (pé-franco), visto que estas cultivares apresentam certa tolerância a filoxera, pulgão que ataca o sistema radicular da videira.
Embora esta opção seja viável e menos trabalhosa recomenda-se a utilização da muda enxertada. Isto porque, com a utilização do porta-enxerto, além de melhorar a eficiência no controle da filoxera, tem-se a vantagem de propiciar maior produtividade e qualidade da uva, maior resistência a doenças e adaptação a diferentes tipos de solo.
Material de propagação
O material de propagação para o preparo de mudas, seja de pé-franco (estacas da produtora) ou enxertada (gema da produtora e estaca do porta-enxerto), deve ser obtido em órgãos oficiais ou viveiristas credenciados. Outra opção e, neste caso, somente para material das produtoras é a obtenção do material em vinhedos comerciais que tenham sido formados com mudas de procedência conhecida onde deve-se proceder à seleção das plantas para a retirada do material.
No caso do produtor optar em fazer a seleção das plantas de cultivares produtoras para a retirada de estacas para o plantio de pé-franco ou garfos (gemas) para enxertia, deve escolher vinhedos adultos, com idade mínima de quatro anos, de preferência acima de 8 anos e que tenha sido formado com material de boa procedência em relação à sanidade e identidade varietal. Na seleção deve-se marcar as plantas com bom vigor, produtivas e boa maturação da uva e sem qualquer tipo de sintoma que possa ser causado por doenças ou pragas. A observação das plantas deve ser feita em diversas épocas do ano, visto que os sintomas da maioria das doenças se expressam melhor em determinados estádios do ciclo vegetativo. As épocas mais aconselhadas para observar as plantas são: a) Na primavera, quando os ramos alcançam em torno do 50 cm, verificar se as folhas apresentam sintomas de deformações, amarelamentos e manchas cloróticas de contorno variado e nos ramos se há anomalias como bifurcações, entrenós curtos, achatamentos e nós duplos; b) Na fase de maturação da uva, antes da colheita, verificar se as plantas apresentam cachos com falhas e mal formados, maturação irregular (presença no mesmo cacho de uvas maduras e verdes), e também, se aquelas plantas que embora tenham boa produção apresentam maturação atrasada ou incompleta; c) No fim do ciclo vegetativo, antes da queda das folhas, observar se as folhas apresentam aspecto rugoso e coreáceo, avermelhamento nas cultivares de uva pretas ou rosa e amarelamento pálido nas cultivares de uva branca; d) No período de dormência, antes da poda, época que a planta está sem as folhas, verificar a presença de achatamento nos ramos, nós duplos (gemas opostas), bifurcações, entrenós curtos, engrossamento nos entrenós, amadurecimento irregular do lenho e morte de ramos.
No caso de porta-enxertos é difícil selecionar plantas sadias na propriedade, pois mesmo infectadas, as plantas não mostram sintomas de muitas doenças importantes. Desta forma recomenda-se obter as estacas ou matrizes de porta-enxerto de fonte segura que tenham material certificado ou fiscalizado. Não utilizar para propagação, estacas retiradas de rebrotes de porta-enxerto que, eventualmente, brotam de plantas em vinhedos comerciais em plena produção.
Coleta e conservação do material propagativo
A coleta do material propagativo do porta-enxerto (estacas) e da produtora (gemas), deve ser feita no inverno, quando a planta esta em dormência (sem folhas) e com os ramos bem lignificados (amadurecidos). Somente devem ser aproveitados os ramos que vegetaram na última estação (ramo do ano) e que nasceram de ramos do ano anterior, ou seja, ramos de dois anos. Recomenda-se que a coleta do material seja feita o mais próximo possível da época do plantio ou da enxertia. Quando for necessária a conservação do material, antes do plantio ou da enxertia, deve ser feito, de preferência, em câmara fria. Caso a câmara fria não disponha de controle de umidade, os feixes devem ser cobertos com papel jornal úmido e envolvidos em plástico bem vedados, para evitar a perda de umidade do material. Não dispondo de câmara fria, conservar em local fresco (porão) sob areia ou serragem úmida. Quando for estacas (40-45 cm) a conservação pode ser feita em feixes, em pé, com a base das estacas enterrada (10-20 cm) em areia com bastante umidade e em local bem sombreado e fresco, onde pode permanecer por até duas ou três semanas. Se os ramos da videira perderem água equivalente a 20% do seu peso, podem se tornar inviáveis para o plantio ou enxertia. O ideal é que todo o material, antes de ser colocado na câmara fria, seja hidratado por 24 horas por imersão ou em pé na água. Quando o material destinado ao plantio é retirado da câmara fria ou da areia, deve ser hidratado por dois ou três dias, antes de ser plantado. No caso de material de produtora destinado a fornecer gemas para enxertia é suficiente uma hidratação de 24 horas antes da enxertia.
Preparo das estacas
As estacas para plantio de pé-franco (produtora) ou para enxertia (porta-enxerto) devem ter o comprimento em torno de 45 cm, correspondendo, aproximadamente, a 4-6 gemas e com um diâmetro de 7-12 m. O corte na extremidade inferior da estaca (base) deve ser horizontal, logo abaixo da gema (0,5 cm). Na extremidade superior, o corte deve ser inclinado (bisel) de 3 a 5cm acima da gema.
Formação da muda
As mudas de videiras americanas e híbridas de pé-franco ou enxertada podem ser preparadas diretamente no local de implantação do vinhedo ou em viveiro para posterior transplante. O preparo das mudas em viveiro possibilita, numa pequena área, fazer grande número de mudas, facilitando os tratamentos fitossanitários, adubação, irrigação, cobertura plástica do solo etc. Além disso as mudas podem ser selecionadas antes de ir para o local definitivo. Em contrapartida, a muda feita no local definitivo tem a vantagem do maior desenvolvimento inicial das plantas, especialmente nos primeiros dois anos, visto que, neste caso, o porta-enxerto já está enraizado no local definitivo quando enxertado.
Escolha da área e preparo do solo para viveiro
O viveiro deve estar distanciado pelo menos 50 m de vinhedos comerciais. Escolher um solo com predominância para o tipo arenoso, profundo e bem drenado, de preferência que não tenha sido cultivado com videiras nos últimos anos. Deve estar livre de fungos de solo que afetam a videira e da praga "pérola da terra", que ataca as raízes da videira e de inúmeras outras plantas cultivadas. Retirar amostras para análise do solo e fazer a correção do pH e de adubação, conforme recomendação. O solo tem que ficar bem preparado (solto), de modo a facilitar o desenvolvimento da muda.
Plantio das estacas
O plantio das estacas deve ser feito no período de julho/agosto. Quando a muda é preparada em viveiro o plantio das estacas pode ser feito em valas com profundidade de 30 cm a 40 cm e largura de 30 cm. As estacas são enterradas à profundidade de 2/3 do seu comprimento e espaçadas de 5 cm a 10 cm. Pode-se colocar na vala duas fileiras de estacas distanciadas 20 cm a 30 cm uma da outra e, entre as valas, deixar uma distância de 1 m. Outra alternativa é preparar canteiros com 15-20 cm de altura e com 60 cm de largura e distantes 50 cm um do outro, cobrindo-os com plástico preto. O plantio deve ser feito em duas fileiras, facilitando a operação de enxertia pelos dois lados do canteiro. Para muda de pé-franco pode-se colocar três fileiras. O plantio pode ser feito furando o plástico com a própria estaca ou perfurando-o antes de colocar a estaca. Deve-se ter o cuidado de manter o solo úmido antes de cobrir o canteiro com plástico. Após o plantio das estacas é importante irrigar em cima do plástico fazendo a água penetrar pelos furos, de modo a deixar o solo bem úmido e em contato com toda a superfície enterrada da estaca. Quando o plantio das estacas é feito no local definitivo, a forma mais comum de plantio é em covas, sempre colocando duas estacas da produtora (pé-franco) ou do porta-enxerto (muda enxertada) em cada cova, enterrando 2/3 do seu comprimento. Se as duas estacas enraizarem elimina-se uma ou transplanta-se para covas onde não houve enraizamento. Outra alternativa, mais aconselhável, é plantar as estacas do porta- enxerto já enraizadas (barbado), para evitar as falhas.
Enxertia de garfagem no campo
No Brasil, esta é a prática mais utilizada e a quase totalidade das mudas são feitas no local definitivo. Como já foi mencionado, a enxertia é feita um ano após o plantio das estacas do porta-enxerto (enxertia de inverno). Em regiões sujeitas à ocorrência de geadas tardias, a enxertia deve ser feita na última quinzena de agosto. O tipo de enxertia feita no campo é a garfagem simples, executada do seguinte modo: inicialmente, faz-se uma limpeza em torno do porta-enxerto para facilitar a operação de enxertia. A seguir elimina-se a copa a uma altura de 10 cm a 15 cm acima do solo, ficando, assim, um pequeno caule ou cepa. Após, com o canivete de enxertia, é feita uma fenda de 2 cm a 4 cm (Figura 1 ), na qual será introduzido o garfo da videira que se deseja enxertar.
Fig. 1. Preparo da fenda no porta-enxerto para enxertia de inverno. (Foto: G. Barros).
Para o preparo do garfo (enxerto), toma-se uma parte do ramo (bacelo) com duas gemas, de preferência com diâmetro igual ao do porta-enxerto. Com canivete bem afiado são realizados cortes rápidos e firmes em ambos os lados, de maneira que o garfo fique em forma de cunha, com largura maior para o lado que fica a gema basal. O comprimento da cunha deverá ser semelhante ao da profundidade da fenda feita no porta-enxerto. É importante que o garfo, assim preparado, seja imediatamente encaixado na fenda do porta-enxerto, de tal maneira que as regiões da casca do porta-enxerto e do garfo (enxerto) fiquem em contato direto. Quando o diâmetro do porta-enxerto e do garfo forem diferentes, é fundamental que, no lado em que se situa a gema basal do garfo, ocorra o contato direto da casca das duas partes - enxerto/porta-enxerto (Figura 2). A seguir, enrola-se firmemente toda a região da enxertia com fita plástica, com cuidado para não deslocar o enxerto. Além da fita plástica pode ser usado ráfia ou vime, embora a fita plástica seja mais indicada por vedar bem os cortes da enxertia, evitando a entrada de água e terra (Figura 3 ). Quando a muda é preparada no local definitivo, crava-se uma estaca ou taquara (tutor) junto ao enxerto, de modo a conduzi-lo até o arame do sistema de sustentação.



Fig. 2. Encaixe do garfo no porta-enxerto mostrando o contato necessário da casca do enxerto/porta-enxerto. (Foto: G. Barros).
Fig. 3. Fixação e proteção do enxerto com fita plástica. (Foto: G. Barros).
Para favorecer a soldadura, deve-se cobrir totalmente o enxerto, com cuidado, utilizando terra solta, areia ou serragem, que devem estar umedecidas, não em excesso, pois com a secamento da superfície do solo pode ficar muito compacto dificultando a saída da brotação do enxerto (Figura 4).
Fig. 4. Proteção do enxerto com terra. (Foto: G. Kuhn).
Ocorrida a pega da enxertia no decorrer da primavera, muitos brotos do porta-enxerto podem surgir, sendo que todos deverão ser removidos sem, contudo, desfazer o montículo. Deve-se ter muito cuidado para não eliminar a brotação originada do garfo (enxerto) que, normalmente, é de coloração mais clara que a do porta-enxerto.
Quando o broto do enxerto atingir um comprimento aproximado de 50-60 cm, deve ser observado se houve afrancamento, ou seja, se ocorreu emissão de raízes a partir do garfo (enxerto). Em caso positivo, as raízes devem ser cortadas com tesoura ou canivete. Nesta época, também deve ser observado se está havendo estrangulamento na região da enxertia, cortando a fita plástica se necessário. Realizadas estas operações chega-se terra novamente, protegendo a região da enxertia até que se inicie o amadurecimento do ramo, quando pode ser tirada a terra. Deve-se fazer o controle da formiga cortadeira e validar os tratamentos fitossanitários, especialmente, do início da brotação em setembro até dezembro, quando doenças como antracnose e míldio ocorrem com maior freqüência. As operações de manejo do enxerto, tais como eliminação da brotação do porta-enxerto, desafrancamento e eliminação da terra que cobre o enxerto, devem ser efetuadas, preferencialmente, em dias nublados.
Ocorrendo a brotação das duas gemas do enxerto e quando estas alcançarem em torno de 1 m, elimina-se o broto mais fraco, amarrando o outro, freqüentemente, junto ao tutor, para evitar a sua quebra pelo vento.
No caso da enxertia ser feita em viveiro, não é necessário tutorar as mudas, devendose fazer despontes do broto sempre que atingir em torno de 50 cm a 60 cm, de forma que o ramo engrosse e fique ereto, facilitando os tratos culturais e fitossanitários. As demais operações são as mesmas já mencionadas quando se forma a muda no local definitivo, e deve ser arrancada no inverno seguinte após a enxertia e replantada no local onde vai ser implantado o vinhedo.
Enxertia verde
Esta modalidade de enxertia é efetuada durante o período vegetativo da videira, sendo recomendada para a reposição de falhas da enxertia de inverno. Pode também ser empregada na renovação do vinhedo. A enxertia é feita por garfagem simples na primavera, nos meses de novembro e dezembro. Se feita mais tarde poderá ocorrer problema na maturação (lignificação) das brotações, principalmente em localidades onde o outono é bastante frio.
Consiste dos seguintes procedimentos: selecionar dois brotos do porta-enxerto conduzindo-os junto ao tutor e eliminando as demais brotações. Quando os ramos do porta-enxerto atingirem em torno de 5mm de diâmetro e estiverem com boa consistência, verdes mas rígidos, já poderão ser enxertados. A altura da enxertia é variável, dependendo do desenvolvimento do ramo, o qual deverá ser despontado a partir do quarto ou quinto entrenó, contado da extremidade para a base (Figura 5). Todas as gemas do porta-enxerto devem ser eliminadas, deixando as folhas. O garfo da produtora com uma ou duas gemas (Figura 6) deve ter o mesmo diâmetro do ramo do porta-enxerto para facilitar a enxertia e a soldadura do enxerto. A elaboração dos cortes é igual ao da enxertia de inverno já descrita. O enxerto deve ser amarrado com plástico fino (Figura 7) vedando totalmente a superfície, desde a região da enxertia até o ápice, ficando a descoberto apenas a(s) gema(s) do garfo (Figura 8). Após a enxertia, deve ser feito duas vistorias semanais eliminando-se os brotos que se originam do porta-enxerto. A brotação do enxerto deve ser amarrada freqüentemente para não quebrar com o vento. Também devem ser realizados os tratamentos fitossanitários, especialmente para o controle da antracnose e míldio. Cerca de dois meses após a enxertia, afrouxar o amarrio para evitar o estrangulamento, permanecendo o enxerto coberto com plástico. A retirada definitiva do plástico somente 90 dias após a enxertia. Estas práticas devem ser feitas em dias nublados e úmidos.


Fig. 5. Ramos do porta enxerto preparados para enxertia verde. (Foto: G. Kuhn).
Fig. 6. Garfo e porta-enxerto de diâmetros semelhantes facilitam a enxertia e a soldadura do enxerto. (Foto: G. Barros).
Fig. 7. Detalhe da amarração do enxerto com fita plástica. (Foto: G. Barros).
Fig. 8. Cobertura de toda região enxertada com fita plástica, ficando a gema de fora. (Foto: G. Barros).
Sistema de condução
A videira, a não ser em casos especiais, não pode ser cultivada satisfatoriamente sem alguma forma de suporte. É uma planta que apresenta uma grande diversidade de arquitetura de seu dossel vegetativo e das partes perenes. A distribuição espacial desse dossel, do tronco e dos braços, juntamente com o sistema de sustentação, constituem o sistema de condução da videira.
Escolha do sistema de condução
Há vários fatores que influenciam a tomada de decisão para a escolha de um sistema de condução: a) o objetivo da produção (qualidade x quantidade); b) a variedade, especialmente no que se relaciona ao hábito de frutificação, que pode exigir poda em cordão esporonado ou mista, neste caso deixando varas e esporões; tamanho do cacho; vigor da planta, que pode requerer altura e/ou largura maiores para uma melhor exposição ao sol; c) as condições do solo e do clima; d) a topografia do terreno; e) o método de colheita, manual ou mecânico; f) o custo de instalação e de manutenção dos postes e fios; g) a conjuntura econômica/rentabilidade do viticultor; h) a tradição. Há uma diversidade muito grande de sistemas de condução da videira utilizados nas diferentes regiões vitícolas do mundo. Para o Sistema de Produção de Uvas Americanas e Híbridas para Processamento em Clima Temperado, é abordado o sistema de condução latada.
Latada
O sistema de condução latada é também chamado de pérgola. É o sistema mais utilizado na Serra Gaúcha, RS e no Vale do Rio do Peixe, SC. O dossel é horizontal e a poda seca é mista ou em cordão esporonado, conforme a cultivar de videira. As varas são atadas horizontalmente aos fios do sistema de sustentação do vinhedo. As videiras são alinhadas em fileiras distanciadas, geralmente, de 2,0 m a 3,0 m, sendo 2,5 m o mais usual. A distância entre plantas é de 1,5 m a 2,0 m, conforme a variedade e o vigor da videira. A zona de produção da uva situa-se a aproximadamente 1,8 m do solo. A carga de gemas também é variável, mas em geral recomenda-se de 120 mil a 140 mil gemas/ha. No caso das variedades Isabel e Bordô, podadas e conduzidas em cordão esporonado e que têm o hábito de apresentar gemas latentes nos ramos de mais de uma ano, é difícil estabelecer a carga de gema do vinhedo.
Principais vantagens:
Proporciona o desenvolvimento de videiras vigorosas, que podem armazenar boas quantidades de material deRESERVA , como o amido;
Permite uma área do dossel extensa, com grande carga de gemas. Isto proporciona elevado número de cachos e alta produtividade;
Em função de sua produtividade, possui uma boa rentabilidade econômica;
É de fácil adaptação à topografia de regiões montanhosas, como a Serra Gaúcha e o Vale do Rio do Peixe; Facilita a locomoção dos viticultores, que pode ser feita em todas as direções.
Principais desvantagens:
Os custos de implantação e de manutenção do sistema de sustentação são elevados;
A posição do dossel e dos frutos situados horizontalmente acima do trabalhador causa transtornos à execução das práticas culturais;
Não é o sistema mais apropriado para a colheita mecânica, ainda que já existam na Europa máquinas com esta finalidade;
A posição horizontal do dossel e o vigor excessivo das videiras podem causar sombreamento, afetar negativamente o microclima, a fertilidade das gemas e a qualidade da uva e do vinho;
O elevado índice de área foliar proporciona maior umidade na região dos cachos e das folhas, o que favorece o aparecimento de doenças fúngicas;
O sistema de sustentação necessita ser sólido para suportar o peso do dossel e da produção e o impacto do vento.
Manejo do dossel vegetativo
O manejo do dossel de um vinhedo conduzido em latada pode se tornar relativamente dispendioso se o número de varas e de esporões não for condizente com as características da cultivar, o vigor das plantas e a densidade de plantio. Nesse caso, há necessidade de realizar a poda verde, especialmente a desbrota, a desfolha e a desponta, a fim de que haja uma melhor distribuição espacial das folhas e uma maior captação da radiação solar. Essas práticas, em geral, devem ser feitas entre as fases de brotação e de floração da videira.
Instalação do sistema
O sistema de sustentação deve ser suficientemente resistente, durável e ter um custo acessível ao empreendimento. Além do custo de instalação do sistema, deve-se considerar também o custo de manutenção.
O sistema de sustentação deve suportar o peso da uva, dos braços e da folhas. Além disso, deve-se considerar o impacto de acidentes durante as operações no vinhedo e os efeitos de ventos e de chuvas muito fortes. Ele é formado por postes e fios que podem ter especificações variadas.
Postes: os postes devem ter algumas características especiais para serem utilizados nos sistemas de sustentação. Eles devem ser a) resistentes, para suportar o peso do dossel vegetativo e da produção de uva; b) duráveis, de preferência durante todo o tempo de vida da planta; c) flexíveis, para facilitar o manejo; e d) enterrados a uma profundidade adequada para que não caiam sob o efeito de chuvas e de ventos intensos.
Eles podem ser de madeira, metálicos, de pedra ou de concreto. Os de madeira são os mais usados, mas devem ter resistência aos fungos e insetos que atacam a madeira. Em geral utiliza-se o eucalipto, que tem fraca resistência natural mas pode tornar-se excelente quando tratado. Para isso, deve-se: a) utilizar postes redondos; b) secá-los de 3 a 6 meses antes do tratamento; c) tirar a casca e fazer uma ponta em uma das extremidades; d) tratá-los com produto recomendado para sua conservação e que substitui a seiva, inicialmente fazendo-se vácuo e após, pressão. Os produtos usados são sais metálicos à base de cobre, de cromo e de arsênio (CCA). O creosoto é outro produto que também apresenta eficácia muito boa. De qualquer forma, é importante que o viticultor tenha certeza de que o tratamento foi bem realizado, a fim de evitar sérios transtornos operacionais e econômicos mais tarde. Isso pode ser feito cortando-se o poste a uns 20 cm da extremidade e verificar se no corte transversal há coloração cinzaesverdeada em toda sua extensão.
Os postes de pedra e de concreto são muito resistentes, especialmente os de pedra.
Mas são pesados e difíceis de serem manipulados, são quebradiços e apresentam certa dificuldade para a instalação dos fios. Os postes metálicos são muito utilizados nos principais países vitivinícolas. Eles são facilmente colocados nos solos não pedregosos e permitem uma fixação rápida dos fios de sustentação da vegetação. São flexíveis, mas precisam ser firmemente inseridos no solo para evitar que se inclinem com a ação de ventos fortes. Sua longevidade depende do material de que são feitos e do material de revestimento. Em geral são galvanizados, o que aumenta sua longevidade e permite uma boa relação preço/longevidade.
No sistema de condução em latada distinguem-se os seguintes tipos de postes: cantoneiras, cabeceiras, laterais, internos e rabichos; além dos postes, há os tutores. As cantoneiras são postes reforçados, colocados nos cantos do vinhedo. Em geral, devem medir 3,0 m de comprimento e ter um diâmetro de 16 cm a 18 cm (Figura 1).
As cabeceiras são postes externos que limitam o início e o fim das fileiras. Os laterais, são igualmente postes externos mas colocados nas laterais do vinhedo. Ambos devem ser reforçados. Em princípio, são feitos com os mesmos materiais das cantoneiras e devem medir cerca de 2,5 m de comprimento e ter de 12 cm a 14 cm de diâmetro. O espaçamento entre as cabeceiras é determinado pela distância entre as fileiras e o dos laterais deve ser de 5,0 m no máximo (Tabela 1). As cantoneiras, as cabeceiras e os laterais podem ser colocados verticalmente ou oblíquos para fora do vinhedo, dependendo das condições de solo e do tipo de rabicho a ser utilizado.
Os postes internos devem medir 2,2 m de comprimento e ter um diâmetro de 7 cm a 10 cm. Eles são colocados no cruzamento dos fios da produção e dos de sustentação da malha. Deve-se fazer uma canaleta na extremidade superior para apoiar o fio de sustentação da malha.
Os rabichos devem ser colocados oblíquos e externamente a 1,5 m das cantoneiras, das cabeceiras e dos laterais. Medem 1,2 m de comprimento e são feitos de pedra, concreto ou ferro, atados a esses postes com um cordão de três fios, o que permite manter o aramado esticado.

Fig. 1. Sistema de condução da videira em latada, especificando postes e fios. Postes - a) cantoneira; b) lateral; c) interno; d) rabicho; Fios - e) cordão primário de cabeceira; f) cordão primário lateral; g) fio da produção; h) fio da vegetação; i)fio de sustentação da malha; j) fio rabicho. Ilustração: A. Miele
O material necessário para a formação de um vinhedo na forma de quadrado e conduzido em latada é variável conforme as características do desenho idealizado. A seguir, indicam-se os postes necessários para a formação de um hectare de vinhedo com as seguintes especificações: a) distância entre fileiras - 2,5 m; b) distância entre plantas - 1,5 m; c) distância entre os laterais -5,0 m; d) distância entre os postes internos - 5,0 m; e) um fio da produção e quatro fios da vegetação por fileira (Tabela 1).
Tabela 1. Especificações e número de postes para formar um hectare de vinhedo na forma de quadrado e conduzido em latada.
Tipo de poste Comprimento (m)
Diâmetro (cm)
Número de peças

Fórmula para determinar o número de cabeceiras e postes laterais necessários: [(comprimento da latada ÷ espaçamento dos postes laterais) -1] x2 +
[(largura da latada ÷ espaçamento dos postes cabeceira) -1] x2
Fórmula para determinar o número de postes internos:
[(comprimento da latada ÷ espaçamento dos postes laterais) -1] x [(largura da latada ÷ espaçamento dos postes cabeceira) -1]
Arames: Os cordões, fios e acessórios utilizados na construção de vinhedos devem ser especiais para a finalidade desejada. São produtos com galvanização pesada, o que implica numa maior vida útil do aramado devido à maior proteção contra a ferrugem e à maior resistência mecânica. Além disso, apresentam menor coeficiente de alongamento, isto é, aumentam pouco seu comprimento quando a temperatura se eleva ou são tracionados pelo peso dos frutos e da vegetação.




O aramado é formado por cordões de cabeceira e cordões laterais e por fios da produção, da folhagem e dos rabichos (das cantoneiras, das cabeceiras e dos laterais). Os cordões de cabeceira são dois, interligando as cantoneiras de duas extremidades do vinhedo e os postes de cabeceira situados entre eles. Os cordões laterais também são dois, colocados perpendicularmente aos cordões de cabeceira e interligando as cantoneiras de duas cabeceiras do vinhedo e unindo os postes laterais. Ambos geralmente são formados por sete fios enrolados helicoidalmente e revestidos por uma camada de alumínio pesada. Os fios de sustentação da malha são colocados perpendicularmente às fileiras das plantas e paralelamente aos cordões de cabeceira. Eles unem os postes laterais de ambos os lados do vinhedo, passando pelos postes internos. São formados por três fios, com um diâmetro total de 4,0 m. Os fios da produção unem os postes das duas cabeceiras do vinhedo e têm a finalidade de sustentar a cabeça da videira quando ela é podada em poda mista ou os cordões esporonados quando a condução da planta for nesse sentido. Utilizam-se fios ovalados 15 x 17 ou 14 x 16.
Os fios da vegetação unem os dois cordões de cabeceira e são paralelos aos fios da produção. Utilizam-se fios de 2,10 m de diâmetro. Tanto os fios da produção como os fios da vegetação passam por cima dos fios de sustentação. Geralmente colocam-se quatro fios da vegetação para cada fio da produção, dois de cada lado e distanciados cerca de 50 cm um do outro, dependendo da distância entre as fileiras.
Os postes de cabeceira e laterais são amarrados aos rabichos correspondentes através de fios. Para as cantoneiras utilizam-se dois cordões com três fios cada e para as cabeceiras e os laterais, um cordão com três fios. O cordão deve ter cerca de 4,0 m de diâmetro.
As características dos diferentes tipos de fios que podem ser utilizados no sistema de sustentação de um vinhedo conduzido em latada são descritas na Tabela 2.
Tabela 2. Características do aramado para a formação de um hectare de vinhedo conduzido em latada.
Fio Número de fios
Carga mínima de ruptura (kgf)
Diâmetro (m)
Quantidade (m)

Fio do rabicho 3 1.0 4,0 350 * Medida para o fio 15 x 17. Mas pode-se usar, também, o 14 x 16.
Além da cordoalha e dos fios, são necessários acessórios para o acabamento do aramado.
Etapas para formação do vinhedo
O formato da latada deve ser, de preferência, quadrado ou retangular. Entretanto pode ter outra forma, como por exemplo a de um trapézio.
Marcação do terreno e colocação dos postes: A formação do vinhedo se inicia com a marcação das covas, que pode ser feita com um teodolito ou através do esquadrejamento. Estica-se uma linha de pedreiro ou um fio onde deve se localizar uma das cabeceiras ou das laterais. Na extremidade desta linha, instala-se uma estaca onde deverá se situar uma das cantoneiras e, a partir dela, faz-se um outro alinhamento de 20 m. Uma segunda estaca deve ser colocada a 15 m da estaca da cantoneira e no mesmo alinhamento do fio. A partir dela, estica-se uma linha ou fio de 25 m de comprimento, de modo que a extremidade do alinhamento de 20 m coincida com o alinhamento de 25 m. Colocar, então, uma baliza sobre esta estaca e a estaca correspondente à cantoneira. Após, com uma terceira estaca faz-se o alinhamento desta com a cabeceira ou a lateral do vinhedo até completar o seu comprimento. Este procedimento deve ser repetido na outra extremidade do alinhamento inicial. Ligam-se, então, as extremidades dos alinhamentos das cabeceiras ou dos laterais. No contorno, devem-se instalar estacas conforme os espaçamentos pré-determinados para o vinhedo. A seguir, unem-se as estacas correspondentes da cabeceira e da lateral com um fio. A interseção destes alinhamentos corresponde à marcação dos postes internos.
A escavação pode ser feita com trator munido de broca e seu diâmetro deve ser de pelo menos 2,5 vezes o dos postes. Essas escavações são verticais no caso das destinadas aos postes das cabeceiras, dos laterais e dos internos e inclinadas de 60º no caso dos rabichos.
O preparo dos postes, como os entalhes, pode ser feito anteriormente à instalação da latada. Emprega-se, em geral, um molde para fazer a marcação dos entalhes dos postes e dos rabichos. Os entalhes dos postes de cabeceira devem ser feitos, de preferência, após sua instalação: deve-se fazer dois anelamentos rasos semicirculares a 50 cm da parte de cima do poste, um para cada rabicho, com uma distância de 5 cm um do outro.
Recomenda-se começar a instalação do vinhedo por um poste de cabeceira ou por um poste lateral vizinho ao da cabeceira. Faz-se inicialmente uma marca que identifica o comprimento do poste que ficará acima e abaixo do solo. Coloca-se o poste no buraco e alinha-se esta marcação rente à superfície do solo. Após, mede-se o comprimento vertical da parte superior do poste até a superfície do solo. Se a latada estiver em área plana, esticam-se duas linhas, uma na parte superior e a outra na metade do comprimento exposto, ligando os dois postes vizinhos às cantoneiras de cada cabeceira e de cada lateral. A instalação dos demais postes externos terá a inclinação e a altura dos postes onde essas linhas foram amarradas. Mas, se a latada for instalada em solo irregular, o que é mais freqüente, a instalação dos postes externos deverá ser feita individualmente. Deve-se usar, neste caso, molde de madeira ou de metal com as dimensões de comprimento do poste e altura vertical. Para evitar que a terra do fundo do buraco ceda e o poste afunde, coloca-se pedra ou terra batida no buraco. Colocado o poste, deve-se encher este buraco com terra e compactá-la completamente.
Colocados todos os postes de cabeceira e os laterais, procede-se à instalação das cantoneiras. Faz-se um alinhamento da base da cantoneira com a base dos postes laterais e de cabeceira, cuja parte superior deve estar alinhada com a parte superior desses postes. Feito isso, compacta-se a terra.
A colocação dos postes internos pode ser feita antes ou depois da colocação do aramado. Se após, tem-se a vantagem de conhecer o ponto de apoio e de fixação de um poste interno através da interseção do fio da produção com o fio de sustentação da malha. Este procedimento conduz a um alinhamento perfeito. Além disso, em solos irregulares a instalação do aramado antes da dos postes internos pode fazer com que o vinhedo não tenha sempre a mesma distância da malha até o solo.
Os rabichos são instalados após os demais postes: para cada poste de cabeceira ou lateral há um rabicho; mas para as cantoneiras há dois, um para o cordão de cabeceira e, outro, para o cordão lateral.
Instalação do aramado: Ao adquirir os fios, eles não devem ser armazenados próximos de adubos ou em locais excessivamente úmidos, pois isso pode comprometer sua qualidade. Para desenrolar os fios, deve-se usar um desenrolador de arame ou, na ausência deste, colocar três estacas inclinadas no interior do rolo.
Inicia-se a instalação do aramado com um dos cordões, de cabeceira ou lateral. A seguir, colocam-se sucessivamente o fio de sustentação da malha, o fio da produção e, finalmente, o fio da folhagem. Este fio é desenrolado numa cabeceira e finalizado na outra, tomando-se o cuidado de passá-lo sobre o fio de sustentação da malha. A seguir, ele é cortado e emendado. Faz-se um novo arremate com o fio da folhagem na outra cabeceira, tensionando-o com um alicate. Recomenda-se iniciar o tensionamento da malha pelo vão situado no meio da cabeceira e, a partir daí, proceder desta forma alternadamente com o vizinho da esquerda e da direita.
Poda
A videira, em seu meio natural, pode atingir grande desenvolvimento. Nessas condições, a produtividade não é constante e os cachos são pequenos e de baixa qualidade. Ao limitar o número e o comprimento dos sarmentos, a poda seca proporciona um balanço racional entre o vigor e a produção, regularizando a quantidade de uva produzida e sua qualidade. A poda verde constitui-se num importante complemento da poda seca para melhorar as condições do dossel vegetativo do vinhedo.
Poda seca
Os principais objetivos da poda seca são: a) propiciar que as videiras frutifiquem desde os primeiros anos de plantio; b) limitar o número de gemas para regularizar e harmonizar a produção e o vigor, de modo a não expor as videiras a excessos de produção que podem levá-las a períodos de baixa frutificação; c) melhorar a qualidade da uva, que pode ser comprometida por uma elevada produção; d) uniformizar a distribuição da seiva elaborada para os diferentes órgãos; e) proporcionar à planta uma forma determinada que se mantenha por muito tempo e que facilite a execução dos tratos culturais.
Escolha do sistema de poda
A eleição de um sistema de poda depende da cultivar, das características do solo, da influência do clima e de aspectos sanitários.
Cultivar: pode-se adotar a poda mista (vara e esporão) em determinadas cultivares, como na Niágara Branca, e a poda em cordão esporonado, como na Isabel. Em condições similares de clima e solo, as diversas cultivares apresentam desenvolvimento vegetativo diferenciado. Nas vigorosas, deixa-se um maior número de gemas/vara.
O sistema de poda depende também da localização das gemas férteis ao longo do sarmento. Se as gemas estiverem situadas em sua base, normalmente faz-se a poda em cordão esporonado; as cultivares que apresentam gemas inférteis na base do sarmento exigem poda mista. O comprimento dos entrenós também deve ser considerado para a realização da poda.
Características do solo: o vigor da planta está relacionado com a fertilidade do solo. Videiras em solos de baixa fertilidade não são muito vigorosas e, por isso, normalmente adota-se a poda curta; solos férteis propiciam grande desenvolvimento às videiras, sendo então utilizada a poda longa.
Influência do clima: uma mesma cultivar, plantada em solos similares, comporta-se segundo as características climáticas do local. Em áreas sujeitas a geadas tardias, a videira deve ser conduzida mais alta. Em climas úmidos, as gemas da base do sarmento geralmente são inférteis. Climas secos proporcionam maior fertilidade das gemas da base do sarmento. É importante, ainda, considerar a predominância dos ventos.
Nas regiões onde a incidência direta do sol não é favorável à qualidade da uva, devese fazer a poda de forma que os cachos fiquem sombreados; nas regiões frias e úmidas, a poda deve facilitar a incidência dos raios solares nos cachos.
Aspectos sanitários: as partes da videira com umidade persistente e pouco arejadas propiciam o desenvolvimento de doenças fúngicas. Para evitar a proliferação de doenças nas videiras, deve-se eleger o sistema de poda que assegure o máximo de circulação de ar e penetração de luz.
Localização e tipos de gemas
Na videira não se distinguem gemas vegetativas e gemas frutíferas, como em muitas espécies, mas sim somente gemas mistas, que originam brotos com inflorescências e folhas ou somente folhas. A gema da videira é composta, sendo a principal chamada de primária, que dá origem a um broto frutífero; as outras duas são chamadas de secundárias, que geralmente brotam quando ocorrer algum dano com a gema primária
(geada, granizo, vento, dano nas gemas superiores), as quais dão origem a brotos que podem ser férteis ou não. Em geral, são mais férteis nas variedades americanas e híbridas que nas viníferas. As gemas da videira se localizam nas axilas das folhas, na posição lateral do ramo, inseridas junto aos nós (Figura 1).
Gemas prontas: formam-se na primavera-verão, cerca de uma dezena de dias antes das gemas francas. Assim que formadas podem dar origem a uma brotação chamada feminela ou neto (ramo antecipado), que pode ser estéril, pouco ou muito fértil, segundo a cultivar. Localiza-se, também, na axila das folhas, ligeiramente descentralizada e abaixo da gema franca.
Gemas francas ou axilares: formam-se na base das gemas prontas, junto à inserção do pecíolo foliar e permanecem dormentes durante o ano de formação, mas sofrem uma série de transformações. A formação do esboço dos cachos se completa somente na primavera seguinte. Durante a brotação e desenvolvimento dos ramos, as gemas francas não germinam porque são inibidas pela atividade dos ápices vegetativos (dominância apical) e das gemas prontas (inibição correlativa). Essas gemas podem produzir de um a qautro cachos, e até cinco como por exemplo na Couderc 13.
Gemas latentes: são gemas não muito desenvolvidas, localizadas na madeira velha, que foram cobertas pela sucessiva formação de tecidos. Quando brotam dão origem a ladrões estéreis, que surgem quando se realiza uma poda drástica; ocorre danos por geadas tardias nas outras gemas; há problemas com a circulação da seiva.
Gemas basilares, da coroa ou casqueiras: são um conjunto de gemas não bem diferenciadas que se formam na base do ramo, junto à inserção do broto do ano com a madeira do ano anterior. Somente brotam quando se fizer poda curta, aplicação de regulador de crescimento ou ocorrer problemas com as gemas francas. Geralmente são férteis nas cultivares americanas e inférteis nas viníferas.
Gemas cegas: são as mais desenvolvidas das gemas basilares, sendo as primeiras gemas visíveis localizadas logo acima dessas. Geralmente elas são férteis nas americanas.

Fig. 1. O sarmento da videira e suas partes (Segundo Chauvet & Raynier, 1979). Princípios fundamentais da poda
Mesmo que os sistemas de poda sejam transmitidos durante gerações, de forma empírica ou intuitiva, é importante que o podador conheça as bases racionais nas quais se sustenta a difícil técnica de podar. Os princípios da poda são os seguintes:
A videira normalmente frutifica em ramos do ano que se desenvolvem de sarmentos do ano anterior.
O ramo que proporcionou um broto frutífero não produz novamente, por isso deve ser substituído por outro que ainda não tenha produzido. A preocupação deve ser o presente (próxima safra), mas não se pode esquecer o futuro (safras subseqüentes).
A frutificação é em geral inversa ao vigor, pois a produção de uva reduz a capacidade da videira para a próxima safra ou safras. As videiras com altas produções apresentam menos vigor e terão menores produtividades no ano seguinte ou nos anos seguintes.
O vigor individual dos ramos de uma videira é inversamente proporcional ao seu número. Quanto mais o ramo se aproximar da posição vertical, maior será o seu vigor. A brotação se inicia pelas gemas das pontas das varas ou esporões (brotação mais precoce e mais vigorosa); as gemas da parte mediana e da base das varas brotam posteriormente. A curvatura da vara, as amarrações e o uso de reguladores de crescimento alteram essa dominância.
Uma videira só tem condições de nutrir e maturar de forma eficaz uma determinada quantidade de frutos.
Os ramos mais afastados do tronco são, em igualdade de condições, os mais vigorosos. As gemas mais afastadas da base do ramo têm, em geral, maior fertilidade.
O tamanho e o peso dos cachos, nas mesmas condições de cultivar, solo, clima e poda, aumentam quando se faz desbaste de cachos após o pegamento do fruto.


Qualquer que seja o sistema de poda aplicado, o viticultor deverá vigiar para que a futura área foliar e a produção tenham as melhores condições de aeração, calor e luminosidade.
Para continuar um braço se elegerá o sarmento situado mais baixo e mais próximo da base.
Informações adicionais aos princípios da poda
A dominância apical é variável em função da variedade (as que possuem forte dominância apical devem ser podadas curtas), do vigor da videira (plantas fracas apresentam dominância apical mais marcada), do rigor do período de repouso (inverno deficiente a favorecem) e do tipo de sustentação (orientação dos ramos).
A adequada nutrição de carboidratos, o crescimento moderado do ramo e a produtividade normal favorecem a maturação do ramo e propiciam a formação de gemas frutíferas. Os sarmentos maduros armazenam maior quantidade deRESERVAS  (amido e sacarose) que sarmentos parcialmente maduros.
O comprimento do entrenó está relacionado com o vigor da planta (velocidade de crescimento). Ramos formados no início do ciclo e com crescimento regular terão entrenós com comprimento normal, o que significa dizer boas condições para o desenvolvimento das gemas frutíferas e para a maturação; entrenós muito longos indicam excesso de vigor e de crescimento, induzindo à formação de sarmentos imaturos e deficiente desenvolvimento das gemas frutíferas; entrenós muito curtos ocorrem quando há nutrição deficiente, falta de água, pragas ou doenças.
Os ramos ladrões com crescimento normal podem ser utilizados como elementos da poda. Quando o desenvolvimento é rápido, com excessivo vigor, apresentam gemas pouco férteis ou geralmente estéreis.
O podador deve selecionar as varas e os esporões pela sua condição (vigor e sanidade) e, após, pela sua posição na planta.
Época da poda
A época depende de vários fatores, entre os quais a cultivar, tamanho do vinhedo, topografia do terreno (riscos de geadas tardias), disponibilidade de mão-de-obra qualificada, concorrência com outras atividades na propriedade, umidade do solo e objetivos da produção (indústria, mesa).
A poda é feita durante o período de repouso da videira, isto é, desde a queda das folhas até pouco antes do início da brotação. Nas regiões expostas a geadas tardias poda-se tarde; nos climas temperados, durante o inverno; e podam-se tarde as videiras vigorosas e cedo, as fracas. As podas excessivamente precoces ou demasiadamente tardias são debilitantes para a videira e retardam a brotação.
Para as condições da Serra Gaúcha, a poda tardia é recomendável pois apresenta as seguintes vantagens: a brotação tardia é mais uniforme; há menor incidência de antracnose e menor probabilidade de danos por geadas; propicia maior produtividade do vinhedo; e a temperatura é mais adequada para o desenvolvimento dos tecidos e órgãos da videira.
Elementos da poda
Os elementos da poda são o esporão e a vara. O esporão desempenha duas funções na poda, ou seja, frutificação e produção de sarmento para a futura poda. Quando adotada a poda mista, sua função principal é a produção de sarmentos. A função da vara é a frutificação.
Sistemas de poda
Há grande variabilidade de sistemas de poda, em função da cultivar, clima, solo e porta-enxerto. Mas, podem ser agrupados em poda curta (cordão esporonado) e mista (vara e esporão). A poda é considerada curta quando o esporão tem até três gemas francas, e mista quando permanecem esporões e varas na mesma planta.
Em função do número de gemas deixadas na videira a poda pode ser rica, média ou pobre. Uma poda é considerada rica quando permanecem mais de 120 mil gemas por hectare e pobre, quando esta quantidade é de 50 mil a 60 mil gemas por hectare. Existe uma carga ótima para cada planta, dependendo das condições existentes. Se a quantidade de gemas for menor daquela que a planta exigir, os brotos serão muito vigorosos, haverá maior número de ladrões e, eventualmente, surgirão problemas com a floração; caso a quantidade de gemas for exagerada, resultará numa produção excessiva de frutos que debilitará a planta. O equilíbrio entre a parte vegetativa e a produtiva pode ser expresso pela relação peso fresco do fruto/peso da poda. Um vinhedo equilibrado apresenta valores entre 5 e 10.
O sistema de poda seca recomendado para as cultivares americanas e híbridas depende principalmente do hábito vegetativo de cada variedade.
A Isabel e a Bordô devem ser podadas deixando-se esporões com uma gema. Entretanto pode-se também fazer uma poda rasa, que consiste em podar rente à madeira.
No caso de haver necessidade de renovação de parte da planta, deve-se deixar varas contendo um certo número de gemas, determinado principalmente pela posição do esporão que deu origem a essa vara em relação aos fios de sustentação da folhagem, que serão utilizadas para substituir as partes comprometidas da videira.
A Niágara Branca e demais cultivares com hábito vegetativo similar às viníferas, deve ser podada no sistema poda mista. Se o sistema de condução adotado é o latada, deixam-se de 5 a 6 varas e de 12 a 15 esporões por planta; mas se o sistema for o espaldeira, deixam-se 2 varas, uma para cada lado do fio de sustentação da produção, e 3 ou 4 esporões por planta.
Localização dos cortes de poda
Quando o corte for realizado no tronco ou nos braços da videira, geralmente ocorre a morte dos tecidos subjacentes à secção do corte se ele for efetuado próximo à parte que permanece. Isto por que pode haver infiltração de água da chuva, que pode provocar a decomposição e a necrose do tecido caso não forem adequadamente protegidos até que se forme a cicatriz que o isola dos agentes externos. É importante deixar um pouco de madeira, a qual contribuirá para melhorar a cicatrização.
Os cortes nas varas e esporões não devem deixar a medula exposta, pois pode ocorrer acúmulo de água da chuva e a entrada de insetos e fungos parasitas da videira. Geralmente poda-se logo acima da última gema que se quer deixar, a fim de que permaneça uma pequena porção da medula. O corte deve ser em bisel, com a parte mais comprida do lado da última gema.
Tipos de poda
Há três tipos de poda da videira: formação, frutificação e renovação, realizadas em função da idade da videira.
Poda de formação: tem por finalidade dar a forma adequada à planta, de acordo com o sistema de sustentação adotado.
Desde o plantio da muda ou da enxertia é importante que ocorra um bom desenvolvimento da área foliar e, conseqüentemente, do sistema radicular. Por isso, toda a vegetação da planta deve ser mantida em boas condições.
A formação da planta deve ser bem planejada e posta em prática no início da brotação. Para a Serra Gaúcha recomendam-se os seguintes procedimentos: o broto de maior vigor do enxerto ou da muda (Figura 2A) é conduzido mediante sucessivas amarrações junto ao tutor (Figura 2B); quando esse broto alcançar a estrutura da latada ou o primeiro fio da espaldeira, será despontado cerca de 10 cm abaixo desta (Figura
2C), para eliminar a dominância apical e estimular a brotação e o desenvolvimento das feminelas; os brotos das últimas duas feminelas são conduzidos no arame, mediante amarrações no sentido da linha de plantio, um para cada lado (Figura 2D). Esses brotos serão os futuros braços da videira. Caso eles tiverem o vigor suficiente, poderão ser novamente despontados.
A poda de formação consiste em podar os futuros braços das videiras que foram despontadas, deixando no máximo seis gemas (Figura 2E). As mudas que não foram despontadas, mas que apresentam vigor suficiente, são podadas na altura da estrutura de sustentação. As mudas fracas devem ser podadas a duas gemas. Normalmente, a poda de formação é concluída até o terceiro ano. A poda de formação adequada proporciona maior facilidade para a realização da poda de frutificação.

Fig. 2. Poda de formação: A - enxerto ou muda; B - condução da muda; C - desponta; D - condução das feminelas; E - poda seca. (Desenhos: Adriano Mazzarolo)
Poda de frutificação: A poda de frutificação, também chamada de poda de produção, tem por objetivo preparar a videira para a produção da próxima safra. Deve ser feita através da eliminação de sarmentos mal localizados ou fracos e de ladrões, a fim de que permaneçam na planta somente as varas e/ou esporões desejados. A carga de gemas do vinhedo deve ser adequada à maximização da produtividade e da qualidade de uva, sem comprometer as produções dos anos seguintes.
Nas videiras espaçadas de 2,5 m x 1,5 m, conduzidas em latada e com poda mista, pode-se deixar, em cada braço, três varas com 6 a 7 gemas cada uma e até 6 esporões com duas gemas cada um (Figura 3A). Isso resulta de 60 a 6 gemas/planta. As varas devem estar distanciadas entre si cerca de 0,50 m. Portanto, nos 0,75 m de cada braço permanecem duas varas num sentido e uma no sentido oposto. Os esporões localizam-se próximos às bases das varas. As sucessivas podas de frutificação resumem-se em eliminar as varas que já produziram e substituí-las por outras originadas dos esporões (Figura 3B). Das duas brotações dos esporões (Figura 3C) seleciona-se, na próxima poda, a mais afastada do braço para ser a futura vara (Figura 3D) e a mais basal para ser o esporão (Figura 3E). Desta forma, a carga básica é de 6 varas e 12 esporões por videira.

Fig. 3. Poda de frutificação: A - planta antes da poda, mostrando os sarmentos originados dos esporões e varas deixados no ano anterior; B - planta mostrando as varas e os esporões deixados após a poda; C - brotação das duas gemas do esporão; D - detalhe indicando a posição dos cortes na poda mista de inverno; E - detalhe mostrando a vara e o esporão após a poda. (Desenhos: Adriano Mazzarolo)
Poda de renovação: a poda de renovação consiste em eliminar as partes da planta, principalmente braços e cordões, que se encontram com pouca vitalidade devido a acidentes climáticos, danos mecânicos, doenças ou pragas, e substituí-los por sarmentos mais jovens. É utilizada, também, para rebaixar partes da planta que se elevaram em demasia em relação ao aramado, bem como as partes que, devido a sucessivas podas, se distanciaram dos braços ou cordões.
Para a renovação de toda a copa, utiliza-se a brotação de uma gema latente do tronco (ladrão) bem localizada e a partir dela se reconstitui a planta. Essa prática é pouca utilizada sendo preferível a substituição da videira.
Poda verde
A poda verde é efetuada com o objetivo de complementar a poda seca da videira e de melhorar o equilíbrio entre a vegetação e os órgãos de produção. No manejo do dossel, a poda verde é uma de suas principais atividades. Ela consiste na desbrota, no esladroamento, na desfolha e na desponta de ramos, quando forem verdes ou herbáceos.
Os objetivos gerais da poda verde na videira são: 1) direcionar o crescimento vegetativo para as partes que formarão o tronco e os braços. Isso é feito com a eliminação de gemas, desponta e eliminação de ladrões; 2) diminuir os estragos causados pelo vento; e 3) abrir o dossel vegetativo de maneira a expor as folhas mais favoravelmente à luz e ao ar.
Desbrota e Esladroamento: A desbrota e o esladroamento consistem em suprimir as gemas, os brotos e os ramos que se desenvolvem nos troncos e nos braços e os ladrões que se desenvolvem no porta-enxerto.
Essas práticas têm como principais objetivos: eliminar órgãos frutíferos ou não; reduzir os riscos de infecção de doenças fúngicas como o míldio e a podridão do cacho; reduzir os riscos da fitotoxicidade de herbicidas sistêmicos; preparar as operações da poda seca, de maneira a reduzir o tempo para a execução dessa prática; auxiliar no estabelecimento das plantas como complemento da formação de inverno.
A remoção de gemas inchadas ou de brotos da parte inferior do tronco de uma planta jovem é realizada com o intuito de concentrar o crescimento em um ou mais ramos situados na parte superior, os quais formarão os braços da videira. Nas plantas mais jovens geralmente deixa-se apenas a gema superior, a fim de concentrar o crescimento no único ramo que formará o tronco da videira. Entretanto, em certos casos, é conveniente deixar duas gemas, com o intuito de garantir o desenvolvimento de um dos ramos delas originados.
A remoção dos ladrões geralmente é feita manualmente, entre a brotação e a floração da videira, em uma ou mais vezes, se necessário. Se houver disponibilidade de mão-de- obra, o esladroamento deve ser executado o mais cedo possível. De um modo geral deve ser realizado nos três primeiros anos, para evitar o surgimento de ladrões a partir do quarto ano.
Desfolha: A desfolha consiste na eliminação de folhas da videira, principalmente as situadas próximas aos cachos.
Essa prática tem como principais objetivos: aumentar a temperatura, a insolação e a aeração na região dos cachos; melhorar a coloração e a maturação das bagas; reduzir a incidência das podridões do cacho; favorecer a penetração dos fungicidas no dossel vegetativo e nos cachos.
A desfolha, da mesma forma que a desponta, deve ser feita com cuidado, pois se for inadequada pode comprometer a atividade fotossintética da planta. Deve ser feita durante o pegamento do fruto se os objetivos forem os de dar melhores condições para a maturação da uva e de diminuir as condições de incidência de Botrytis. Mas se o objetivo for acelerar a maturação, ela deve ser feita poucos dias antes da colheita da uva. Deve-se salientar que, em qualquer caso, deve-se eliminar somente as folhas muito desenvolvidas, as mais velhas, para não comprometer o fornecimento de nutrientes para o cacho.
Desponta: A desponta consiste na eliminação de uma parte da extremidade do ramo em crescimento e tem os seguintes efeitos:
efeito fisiológico – diminuir a incidência do desavinho em cultivares susceptíveis a este distúrbio fisiológico; efeito prático – facilitar a penetração de materiais e de produtos fitossanitários, o que não seria tão facilmente realizado com uma vegetação densa; efeito sobre o microclima dos cachos - melhorar as condições de insolação e de aeração através da redução da sombra;
efeito sobre a sensibilidade às doenças - eliminação de órgãos jovens susceptíveis à infecção de doenças, especialmente do míldio; efeito sobre a morfologia da planta - manter um porte ereto dos ramos no vinhedo conduzido em espaldeira, antes que adquiram uma posição em direção ao solo.
A desponta deve ser feita manualmente a partir da floração, repassando duas ou três vezes se necessário. Se realizada muito cedo, ela pode estimular o desenvolvimento das feminelas aumentando o efeito da competição por nutrientes; se praticada muito tarde, não apresenta efeito sobre o pegamento do fruto.
A intensidade da desponta não deve ser muito severa, pois pode causar um importante efeito depressivo na videira. De um modo geral, recomenda-se suprimir em torno de 15 cm do ramo. Supressões mais severas, ou seja, de 30 cm a 60 cm, podem causar os problemas acima mencionados.
Doenças fúngicas e medidas de controle
americanas e híbridos são descritos a seguir:    
A videira (Vitis spp.) quando cultivada em condições climáticas favoráveis (elevada umidade e temperaturas amenas) ao desenvolvimento de fungos, está sujeita a uma série de doenças, as quais poderão acarretar graves prejuízos se não forem devidamente controladas. As principais doenças fúngicas que podem causar prejuízos para as videiras


Míldio - Plasmopara viticola
É a principal doença fúngica da videira, podendo infectar todas as partes verdes da planta, causando maiores danos quando afeta as flores e os frutos.
Sintomatologia: Nas folhas, na parte superior aparecem manchas amarelas, translúcidas contra a luz do sol com aspecto encharcado, denominadas de "mancha de óleo" (Figura 1). Em umidade relativa alta (acima de 95%), surge a esporulação branca do fungo na parte inferior da mancha (Figura 2), a seguir a área afetada fica necrosada, podendo causar a queda da folha. Nas inflorescências infectadas ocorre o escurecimento da ráquis, podendo ainda haver esporulação do fungo, seguido pelo secamento e queda dos botões florais. Quando o fungo ataca as bagas mais desenvolvidas, estas são infectadas pelos pedicelos e o fungo se desenvolve no interior da baga, tornando-as escuras, duras, com superfícies deprimidas, provocando a queda das mesmas (Figura 3).
Este sintoma nesta fase de desenvolvimento é denominado de "míldio larvado" ou grão preto.
Fig. 1. "Mancha de óleo" típica de míldio (Foto: G. Nakashima).

Fig. 2. Parte de baixo da folha com frutificação do fungo. (Foto: G. Nakashima).

Fig. 3. Sintoma de míldio no cacho "grão preto". (Foto: G. Nakashima).
Condições predisponentes: A temperatura ideal para o desenvolvimento do míldio fica entre 18ºC a 25ºC. O fungo necessita de água livre nos tecidos por um período mínimo de 2 horas para haver infecção. A presença de água livre, seja proveniente de chuva, de orvalho, ou de gutação, é indispensável para haver a infecção, sendo a umidade relativa do ar acima de 98% necessários para haver a esporulação. A infecção do fungo nas folhas se dá pelos estômatos presentes na face inferior, estômatos e pedicelos durante a floração e inicio da frutificação e pedicelos quando a uva já está mais desenvolvida.
Medidas de controle: O controle preventivo deve começar adotando-se medidas que melhorem a aeração e insolação da copa, objetivando diminuir o tempo de molhamento foliar. Estas medidas incluem: espaçamento adequado; evitar áreas de baixada ou voltados para o sul, quando for escolher o local do vinhedo; boa disposição espacial dos ramos sobre o aramado; adubação equilibrada; poda verde (desbrota, desnetamento, desfolha, desponte, etc.).
O controle químico deve ser realizado com os fungicidas registrados para a
profundidade, e ação sistêmica              
cultura (Tabela 3). Estes podem ter ação de contato (superfície), de
temperaturas, radiação solar e lavados pela chuva        
Os produtos de contato só protegem a superfície coberta pela aplicação, e não tem ação sobre o fungo no interior dos tecidos, por isso uma boa e uniforme cobertura durante a pulverização é necessário para a eficácia destes produtos. Tem pouca persistência na planta, são facilmente destruídos pelas altas
Os fungicidas com ação de profundidade podem atuar sobre o fungo no interior das folhas até dois dias após a infecção, porém não circulam na planta e também
preventivamente          
só protegem as partes pulverizadas. Podem ser usados quando se constata os sintomas iniciais do míldio, porem são mais eficazes quando aplicados
Os produtos sistêmicos circulam pela seiva da planta, podendo matar o fungo até três dias após a infecção. Devido sua ação sistêmica, podem proteger as partes não pulverizadas da planta. Embora mais eficazes, não se recomenda mais de duas a três aplicações por safra, pois há riscos do aparecimento de raças resistentes do fungo a estes fungicidas. Recomenda-se que estes produtos sejam aplicados nos estádios de maior sensibilidade da cultura, que são a floração até o inicio da maturação. Para evitar o aparecimento de resistência, recomenda-se também um programa de tratamentos com alternância de produtos.
Os fungicidas cúpricos quando usados durante o florescimento e logo após o pegamento dos frutos podem causar fitotoxicidade. Um maior cuidado no controle do míldio deve ser dispensado durante a floração até o inicio da maturação, pois é nestes estádios que ocorre a infecção no cacho, causando o
"míldio larvado ou grão preto". Os tratamentos devem ser preventivos, pois após o aparecimento do "grão preto" os danos e os prejuízos já foram produzidos. Na tabela 1, estão contidas informações sobre a eficácia dos principais princípios ativos recomendados para o controle do míldio. Algumas recomendações para evitar o surgimento de resistência de fingicidas ao fungo Plasmopara estão contidas na tabela 2.
Tabela 1. Eficácia média de fungicidas recomendados para o controle do míldio baseado em resultados de três anos de avaliação. Bento Gonçalves, 1998.
Princípio ativo Concentração g i.a. (%)
Dose g i.a./hl
Ação do produto
Eficácia (%)
Classe toxicológica
Folpet 50 90 Contato 70 a 90 IV Oxicloreto de cobre 50 137,5 Contato <70 IV
Oxicloreto de cobre + Mancozeb 20 + 20 60 + 60 Contato 70 a 90 I
Sulfato de cobre 25 240 Contato 70 a 90 IV Mancozeb 80 240 Contato 70 a 90 I Ditianon 75 93.75 Contato >90 I
Cymoxanil + Mancozeb 8 + 64 20 + 160
Penetrante + Contato >90 I
Metalaxil + Mancozeb 8 + 64 24 + 192
Sistêmico + Contato >90 I
Tabela 2. Modo de Ação de Fungicidas Antimildio e Recomendações para evitar o surgimento de resistência do patógeno.
Modo de Ação Ingrediente ativo Recomendação para evitar resistência
Multisitios Mancozeb,folpet,dithianon,captan, cúpricos, etc.
Sem limite de aplicações, deve ser reaplicado após chuva de 20 a 25 m.
Unisitios- inibidores mitocondriais Azoxystrobin, famoxadone Máximo três aplicações/safra, não mais que duas seguidas.
Metabolismo do ácido Cymoxanil Associar a produto de contato nucleico e aminoácidos e limitar as aplicações.
Biosíntese da parede celular Dimethomorfo Máximo duas a três aplicações/safra.
Inibidores da biosíntese do ARN Matalaxil e benalaxil
Associar a produto de contato e no máximo três aplicações/safra.
Ação direta ou indireta (estimulando defesas naturais da planta) Fosetyl Sem restrição
Ação sobre a parede celular Iprovalicarb Associar a produto de contato, sem restrição.
Antracnose - Elsinoe ampelina
Sintomatologia: A doença ataca todos órgãos verdes da planta (folhas, gavinhas, ramos, inflorescência, e frutos). Nos ramos, a doença causa o aparecimento de cancros com formatos irregulares de coloração cinzenta no centro e bordo preto (Figura 4). Com a evolução da doença nas folhas, as manchas ficam perfuradas no centro. Nas bagas também aparecem manchas circulares de cor cinza no centro e preta nas bordas, comumente chamada de "olho-de-passarinho" (Figura 5).
Fig. 4. Sintoma de antracnose no ramo "cancros"           
(Foto G. Nakashima).
Fig. 5. Bagas com sintomas de antracnose. (Foto: G. Nakashima).
Condições predisponentes: O desenvolvimento do fungo é favorecido por alta umidade provocada pela precipitação, nevoeiro e orvalho. O fungo pode se desenvolver desde temperatura de 2ºC a 32ºC, porém desenvolve-se melhor em temperatura em torno de 20ºC.
Medidas de controle: Algumas medidas preventivas devem ser tomadas por ocasião da implantação do vinhedo: evitar o plantio em baixadas úmidas e terrenos expostos aos ventos frios do Sul, construir quebra-vento quando a área for exposta aos ventos frios; utilizar material sadio. Estas medidas normalmente não são suficientes para um controle eficiente da doença, portanto quando se observa incidência de antracnose em anos anteriores, o controle deve ser iniciado no período de repouso da videira, pela poda e queima de ramos doentes, e/ou tratamento químico de inverno com calda sulfocálcica, visando eliminar ou reduzir o inóculo inicial. No inicio da brotação, a alta umidade e os tecidos tenros favorecem a infecção das plantas pelo patógeno. As pulverizações devem ser iniciadas nesta fase. As demais aplicações dependerão das condições climáticas e da persistência do produto, até o estádio de meia baga, após esta fase as bagas se tornam resistentes. Os produtos e doses recomendados para o controle da doença constam da tabela 3.
Escoriose - Phomopsis viticola
Pode ser facilmente confundida com antracnose, pois em determinada fase, os sintomas são muito semelhantes.
Sintomatologia: A escoriose se manifesta principalmente na base dos ramos do ano, apresentando os seguintes sintomas: necroses fusiformes ou arredondadas escuras, rachaduras e escoriações superficiais no córtex (Figura 6). No outono os ramos poderão se tornar esbranquiçados a partir de sua base e conter pequenos pontos negros que são os picnídios do fungo. Os ataques podem ocorrer nas nervuras principais de folhas jovens, pecíolos e pedúnculo.
No limbo foliar, forma manchas arredondadas de 3 m a 15 m de diâmetro, sendo escura no centro e amarela(cloróticas) na periferia (Figura 7).
Os ramos de ano podem quebrar facilmente devido ao intumescimento da sua inserção. Devido à morte das gemas basais a poda deve ser realizada na parte mediana do ramo, que distancia muito a produção da cepa, causando desequilíbrio da planta.
Fig. 6. Sintomas de escoriose nos ramos. (Foto: G. Nakashima).
Fig. 7. Sintomas de escoriose nas folhas. (Foto: G. Nakashima).
Condições predisponentes: A conservação do fungo se dá por meio de picnídios formados sobre os sarmentos e/ou do micélio no interior das gemas basais. Períodos prolongados de chuva e frio são as condições ideais para o patógeno. Temperatura entre 1ºC e 37ºC e períodos prolongados de água livre ou umidade relativa acima de 95% são

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